A mão do deserto

A mão do deserto

José Renato Nalini*

18 de janeiro de 2022 | 06h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Ganhei de minha amiga Cecilia Schlarch, no aniversário, o livro “A mão do deserto”, de Paulo Franchetti, publicado pela Ateliê Editorial. Confesso que não me senti de imediato atraído. É um relato de viagem de motocicleta de Campinas, onde o autor reside, até o deserto do Atacama. Nunca pilotei motocicleta. A restritíssima experiência foi à garupa da moto de meu amigo Hélio Lobo Júnior, quando ambos exercíamos nossas funções – ele como juiz, eu como promotor público – na comarca de Ubatuba.

Estava na condição de Alcir Pécora, que escreveu as “orelhas” à guisa de prefácio: “De motocicletas, não entendo nada. A rigor, meu conhecimento se resume a dois pontos: 1) ter assistido Easy Rider dezenas de vezes; 2) ter lido Zen e a Arte de Manutenção das Motocicletas: uma enquete s obre valores logo que saiu e descobrir que a contracultura dos anos 1960 admitia também uma metafísica literária de longa duração”.

Não assisti Easy Rider dezenas de vezes. Mas acho que chegou a uma dezena. E o livro Zen e a Arte de Manutenção das Motocicletas, ganhei de meu então concunhado, José Augusto Machado, e me serviu para reflexões éticas.

Comecei a leitura e não parei até terminar suas 249 páginas. As descrições estritamente motociclísticas mereceram quase que leitura dinâmica. Todavia, comecei a admirar a coragem de Paulo Franchetti, que em 16.1.2017 foi submetido a uma cirurgia cardíaca e que aos sessenta e cinco anos, viajou sozinho por vinte e cinco dias e mais de onze mil quilômetros. Invejei sua disposição e pensei o quão sensaborona foi minha vida hibernada em leituras jurídicas, despachos, sentenças e acórdãos. Fiquei naquela condição do “só passei pela vida, não vivi!”.

Mas ler é um privilégio. Viajei com Paulo e me identifiquei com alguns dos momentos vivenciados durante sua jornada. Como ele, sempre estranhei aglomerações, grandes cidades, bulício e movimento. Minhas viagens procuraram estradas vicinais, fuga às autoestradas, a descoberta do que ainda sobrevive intacto, esquecido pelo “progresso” que padroniza tudo e oferece melancólica visão de homogeneidade.

Senti com ele a percepção nunca por mim experimentada, de um “prazer singular da motocicleta e da constatação da dosagem adequada” da qual “provém a alegre sensação de confiança que alimenta a viagem, fazendo o tempo passar rápido, principalmente quando se está sozinho”.

É raro estarmos sozinhos e curtirmos a solidão sem angústia, nem melancolia. Encontrei-me um pouco nas reminiscências da infância, embora minha velocidade se resumisse à bicicleta com a qual ia à escola, todos os dias e também nos fins de semana. Essa era a sedução do meu “Ginásio Divino Salvador”: aos sábados e domingos, voltava ao colégio para o pingue-pongue e para mergulhar na biblioteca.

Entendi a observação de que “não é fácil explicar para quem nunca pilotou uma motocicleta em que consiste o prazer da integração com a máquina. Diferentemente de um automóvel, no qual a gente está como num sofá, mas contido entre traves de metal e placas de vidro, na moto a sensação é de estar solto no ar, precariamente agarrado a um objeto instável”.

Vibrei com a reflexão junto às ruínas das Missões: compreendo o que representa deixar “a mente perambular pelos restos de leitura, tentando imaginar não somente o que poderia ter sido aquilo tudo, mas ainda o que teria significado para o mundo se o que os jesuítas construíram nesses lugares remotos tivesse perdurado e frutificado como exemplo e caminho na ocupação das novas terras”. O Brasil e os países vizinhos seriam outros. Quiçá melhores!

Como deve ter sido gratificante “a sensação de plenitude, porque pela primeira vez em muito tempo eu estava completamente a sós comigo. Aquele pedaço de mundo de repente parecia estranho, desconhecido, vasto e imponderável. Talvez porque eu ali não me sentisse mais conectado, nem de fato, nem como possibilidade imediata, à casa, à família, aos amigos, às redes sociais, aos livros e aos demais costumes e pequenos rituais em que a vida se esquece em conforto e com facilidade”. Daí o sentimento de “graça alcançada”! Paulo Franchetti conseguiu, nessa viagem, a dádiva de viajar dentro de si, o raríssimo exercício do autoconhecimento, que os gregos pregaram e que é tão difícil praticarmos. Ele teve consciência de que o valioso era obter “o silêncio interior”. Situação fecunda para detectar que a “vantagem de ter tempo é poder desfrutar dele, mesmo que isso signifique nada fazer”. Perceber que a solidão não precisa ser triste: “Esse tio de solidão quase sem palavras, passado o estágio do susto, tinha impacto bom, revigorante, apaziguador. Aflorava aí muito forte a consciência da minha condição real. Fragilidade, transitoriedade, imponderabilidade não surgiam como conceitos ou ameaças vagas, mas como sensações”. Simultaneamente a memória afetiva: mãe, pai, irmã, “seu filho, minhas filhas, minha mulher, os filhos dela e as mulheres que amei e que perdi ou deixei. E ainda outros. Naquelas voltas sem rumo e paradas sem motivo, os vivos e os mortos se foram revelando, cada um a seu turno, nos grandes silêncios e espaços abertos que a moto cortava como se estivesse flutuando. Já não era possível ignorá-los. De alguma forma, com todos conversei em algum momento. Senti que era a oportunidade de pedir perdão e perdoar. Não precisava compreender. Nem saber o motivo. Apenas pedir perdão e perdoar”.

“A mão do deserto” é um livro que surpreende, remexe nossas lembranças, força uma reavaliação de nossa jornada. Ainda que não seja de moto. Vale a pena mergulhar nele.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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