A Lygia que eu perdi

A Lygia que eu perdi

José Renato Nalini*

03 de abril de 2022 | 13h55

Lygia Fagundes Telles. FOTO: SILVANA GARZARO/ESTADÃO

O mundo perdeu Lygia Fagundes Telles no dia 3 de abril. A festejada romancista e contista, o verbo maior na língua portuguesa, vencedora do Camões e sempre cotada para o Nobel de Literatura, já era imortal em vida. Sobre sua obra já existem teses e dissertações e continuará a suscitar estudos, porque ela sabia entreter a vida em suas páginas sedutoras.

Essa Lygia-lenda eu já curtia à distância, na minha meninice. Aquela mulher linda, que escrevera “Ciranda de Pedra”, “As meninas”, era corajosa defensora das letras e da democracia, parecia algo longínquo, verdadeiramente inalcançável.

Quando vim definitivamente para São Paulo, graças a Mariazinha Congílio, passei a conviver com a Lygia e a privar de sua intimidade. Vizinhos de bairro, caminhávamos pelos Jardins, ela a contar coisas de sua meninice, a mostrar seu amor pela natureza tão maltratada. Com ela aprendi a “conversar” com as árvores. Nosso bairro dispunha de muitas idosas e frondosas árvores. Ela gostava de colocar a mão e “sentir” a vida vegetal. Lamentava cada corte, como se desaparecesse uma velha amiga.

Seu humor e fina ironia eram cativantes. Rimos bastante, pois ela era alegre e jovial. Gostava de ir ao cinema. Havia o “Vitrine”, em uma galeria da Augusta e íamos a pé. Comentava o filme e fazia sugestões aos personagens.

Chegou a ir várias vezes à minha chácara, onde se encantava com os saguis, os esquilos e os pássaros. Foi ardorosa defensora de minha pretensiosa candidatura à Academia Paulista de Letras, não só votando em mim, como angariando votos. Na primeira vez, concorri à vaga deixada por Odilon da Costa Manso. Tive treze votos e Paulo José da Costa vinte e dois. Bem depois, por insistência dela e de Paulo Bomfim, disputei a vaga de Duílio Crispim Farina e lá estou desde 2003.

Ela vibrou mais do que eu com a possibilidade de integrarmos o mesmo grupo. Íamos juntos às reuniões. Juarez Francisco Neto, que trabalhava comigo, tornou-se também amigo dela, pois nós a levávamos para casa depois das sessões.

Herdei de minha filha Ana Rosa, quando se casou, uma pequena cadela poodle que não gostava de muita gente, mas, assim que Lygia entrava em casa, pulava no seu colo. Assim como amiga da flora, era apaixonada pela fauna. Curtia gatos e até colecionava adornos felinos.

Conhecer e conviver com essa pessoa cuja imaginação era tão copiosa quanto fulgurante, foi um dos imerecidos prêmios que a vida me conferiu. Ela iniciava diálogos instigantes, invocando personagens da literatura universal e fabulando hipóteses para obras clássicas, de maneira a contribuir com seus criadores, para criar novos enredos e finais inesperados.

Guardei valioso material afetivo dessa convivência tão gratificante quanto enriquecedora. Entregava-me originais de contos e os lia, às vezes mudando algumas palavras. Pedia opinião e às vezes até aceitava sugestões. Era uma amizade tão desigual: a grande dama da literatura universal e um digitador que se embevecia desse contato generoso, cuja valia superava qualquer pós-graduação em letras.

Quando gostava de uma pessoa, costumava chamá-la pelo seu nome. Não raro, dizia: “Renato Nalini Fagundes Telles”. E isso também com Lidia Macedo, sua fidelíssima acompanhante.

Às vezes criticava o desamor à leitura, dizendo: – “Hoje todos escrevem! Onde estão os leitores?”. E brincava contando episódios das Feiras de Livro. Pessoas que mal sabiam com quem estavam conversando, apanhavam guardanapos do chão e pediam: – “D.Rachel de Queiroz, dá um autógrafo?”.

Mãe coragem, sofreu com a morte do filho único, “brilhante cineasta”, como dizia, Goffredo da Silva Telles Júnior. Resistiu, arribou-se, acreditando na descendência com suas duas netas. Lúcia Telles foi a que permaneceu mais próxima, até o fim.

Foi doloroso perdê-la aos poucos. Já não se dispunha a caminhar. Não mais os chás em minha casa. O “Vitrine” fechou. Foi se desligando, se apagando, seu diálogo menos entusiástico. Mas continuou linda, como sempre foi. Uma das mulheres mais bonitas do Brasil. Cujos contos integram antologia planetária. Uma patriota, nacionalista, sem xenofobia. Atenta aos descalabros da política profissional. Incentivadora dos novos talentos. Cultora do belo em todas as suas dimensões.

O mundo perdeu a genial escritora. Eu perdi minha querida companheira de devaneios, com a qual tanto aprendi nessas décadas de um convívio amorável, agora guardado no jardim das memórias, do qual só eu tenho a chave.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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