A luz ESG e a dança no abismo da Petrobrás

A luz ESG e a dança no abismo da Petrobrás

Luiz Fernando Quaglio*

20 de março de 2021 | 03h30

Luiz Fernando Quaglio. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em fevereiro os imbróglios do Planalto em relação à Petrobras vieram à tona e se desdobraram em análises incertas do mercado. A intervenção do presidente da República, Jair Bolsonaro, e a consequente queda do então presidente da companhia, Roberto Castello Branco, resultaram em desvalorização de 20% das ações da petrolífera, cujos papéis correspondem a aproximadamente 12% do volume negociado na bolsa brasileira (B3). A Lei das Estatais foi mais uma vez posta à prova e respondeu de acordo com seus mecanismos de repactuação – pior seria sem ela. Ratifica-se o mantra: “No Brasil não existe política de Estado. Existe política de governo”.

Às vésperas de compor um novo Conselho de Administração e escolher o próximo presidente, a companhia se vê em meio a uma governança deficitária e um processo de desinvestimento que põe em xeque um planejamento de longo prazo tendo em vista uma transição energética sustentável. A centralidade do tema “compra ou vende” das ações da estatal em meio ao mercado financeiro durante mais esse período pôs luz a um fato: a Petrobras não é analisada sob um viés de longo prazo.

Apontar a “política” como culpada, no entanto, é inútil. Esse é um fato irremovível da realidade da empresa. Ao mesmo tempo, não levar em conta a política nos cálculos de risco é um grave equívoco. Não há governança numa estatal que sustente processos eleitorais, aprovação do governo em queda ou mais uma ameaça de greve dos caminhoneiros. Se quase um mês após o episódio da intervenção novos capítulos se avolumam, o horizonte de longo prazo que se desenha é de uma dança arriscada.

Nos últimos anos, grandes petrolíferas adotaram estratégias para caminhar na direção de uma transição energética sustentável histórica, incluindo a incorporação dos custos de carbono, grau elevado de maturidade no monitoramento de toda a cadeia produtiva, relatórios integrados de sustentabilidade, investimento em inovação e descarbonização.
A BP, por exemplo, injetou dinheiro em tecnologias de energia solar, eólica, hidrogênio e outras tecnologias de biocombustíveis. É um dos maiores doadores renováveis ​​do mundo. A petrolífera britânica investe hoje mais de US$ 500 milhões anuais em eólicas, solar e hidrogênio verde. A Shell, por sua vez, tem a ambição de se tornar a maior empresa de energia do mundo em dez anos, e a meta de investir quase US$ 2 bilhões por ano em sua divisão “Novas Energias”, que começou a operar em 2016.

Até a Exxon, outrora maior empresa do planeta e protagonista de muitas episódios “polêmicos” em sua história, passa por profunda reformulação: apoia o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, trabalha para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e foi “incentivada por feedbacks de Fundos de Investimentos” sobre os planos recentes para melhorar o desempenho e os retornos.

Já a francesa Total tem investido pesadamente em mobilidade elétrica, e em breve terá a maior rede do mundo de estações de carregamentos para automóveis elétricos.

Obviamente, há aspectos regionais importantes a serem considerados sob a temática do risco climático, além de políticas de Estado que empurram as companhias para mudanças em seus pilares de produção em direção a um processo limpo.

Mas o fato concreto é que a Petrobras parece estar muito atrás de suas concorrentes globais quando se trata de transição verde, ou até mesmo caminhando no sentido oposto. A meta da estatal é tornar a exploração do barril a mais eficiente e barata do mundo; acelerar a extração em águas profundas e vender o óleo antes que seja tarde”.

Castello Branco, já em 2019 e com foco nos ativos de mais retorno no curto prazo e redução de alavancagem, havia trazido o Capex de R$ 16 bilhões para R$ 11 bilhões. Dos R$ 4,9 bilhões investidos em 2020, 83% foram em atividades de produção e apenas 3% em “outras atividades”, que incluem energia e renováveis. Ainda em 2019, foram investidos R$ 145 milhões em alternativas de baixo carbono, apenas 0.34% dos investimentos totais da empresa no ano.

O plano 2020-2024 prevê US$ 500 milhões para ações de redução de intensidade na emissão de carbono— concentradas principalmente na própria cadeia de exploração e produção— e mais US$ 350 milhões para pesquisa e desenvolvimento em energias renováveis. Em janeiro, a companhia vendeu participações em parques eólicos no Rio Grande do Norte, sinalizando aos investidores que o planejamento para a transição verde não é prioridade.

Sob pressão de investidores, especialmente estrangeiros, a Petrobras lançou em 2020 os “10 compromissos em Sustentabilidade”, sendo seis dessas metas ligadas a redução de intensidade de emissões operacionais, com metas de cinco a dez anos. Outras quatro se referem a redução de captação de água, geração de resíduos, biodiversidade e projetos socioambientais.

É fato que a mais emblemática das empresas vem cumprindo suas metas de aumentando a eficiência de carbono nas atividades. A companhia foi capaz de elevar a produção de petróleo e gás em 40% nos últimos dez anos, sem aumentar as emissões brutas na operação. Há eficiência em suas operações e estruturas tecnológicas. No entanto, o ritmo dessa transição e os problemas políticos que volta e meia se repetem deixam a estatal em uma posição delicada.

O mundo pós-2020 trouxe a luz os processos Ambientais, Sociais e de Governança (em inglês, sigla ESG)  como um caminho sem volta. Diante da inevitabilidade da transição para energias limpas, um modelo de governança orientado para a transparência e para metas de sustentabilidade no longo prazo será central para uma mudança na Petrobras que assegure sua longevidade. Seguir ganhando dinheiro até a última gota de petróleo poderá ser uma dança prestes a terminar.

*Luiz Fernando Quaglio, especialista de Investimentos Sustentáveis | ESG da Veedha Investimentos

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