A lavanderia de Nova York

A lavanderia de Nova York

Fernando Goldsztein*

07 de março de 2022 | 06h00

Nova York. FOTO: ANDREW KELLY/REUTERS

Escrevo estas linhas de Nova York. A cidade foi um dos locais mais brutalmente atingidos pela pandemia. A chegada precoce da Covid 19, em função do grande fluxo de visitantes, pegou a população ainda desprevenida. Além disso, a enorme densidade demográfica, com muitos milhões de pessoas acotovelando-se diariamente no metrô e nas ruas, favoreceu a propagação rápida do vírus. Hoje, passados dois anos, Nova York está voltando, pouco a pouco, a ser a cidade pujante que sempre foi.

Conheço muito bem Nova York, tendo inclusive vivido aqui boa parte do ano de 2019 (pouco antes da pandemia chegar). A cidade surpreende sobre vários aspectos. Particularmente, o que mais me impressiona é a diversidade cultural. Segundo o jornal “The New York Times”, estima-se que cerca de oitocentos idiomas e dialetos são falados aqui. Costumo conversar com as pessoas na rua, ouvir suas origens e histórias. Seja o motorista de Uber bengalês, a camareira russa, o vendedor de frutas coreano ou o dono da lavanderia chinês. Todos chegam nos Estados Unidos em busca de uma alternativa às precárias condições de vida em seus países de origem. Eles vem atrás do “American Dream”. Muitos mal falam o inglês e trabalham muito pelo seu lugar ao sol.

Nestas andanças por Manhattan, conheci o Nick, um imigrante chinês dono de uma lavanderia na segunda avenida (entre as ruas 60 e 61, para os iniciados na cidade). Lavanderias são artigos de primeira necessidade em Nova York. Com um dos metros quadrados mais caros do planeta, os imóveis são compactos e, portanto, ter máquina de lavar e secar roupa em casa é para poucos. As lavanderias “pipocam” por todos os cantos de Manhattan e são, na sua maioria, operadas por imigrantes chineses. O Nick é um deles. Apesar de viver nos EUA há muitos anos, fala um inglês muito difícil de entender. Não chegamos a ficar amigos, mas parecia termos uma admiração mútua. Um dia ele me mostrou a foto da família com os três filhos ainda pequenos. Apontou para a menina que parecia ser a mais velha e disse muito orgulhoso: “Esta aqui se formou em medicina no ano passado. E foi esta lavanderia aqui que pagou todos os estudos dela”.

Fernando Goldsztein. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

O Nick trabalhava seis dias por semana. Qualquer horário que fosse, pela manhã bem cedo, ou no cair da noite, ele estava lá. Lembro que cordialmente me ajudava a ajeitar a trouxa de roupas na sacola. Um gesto simples, porém de muita cordialidade e atenção, especialmente numa cidade como Nova York, onde todos estão sempre correndo e tocando as suas vidas. Aqui não existe tempo para muitas gentilezas… .

Ao retornar agora à Nova York, fui logo levar algumas roupas para lavar e rever o Nick. Para minha total surpresa e, porque não dizer, perplexidade, a “Nick Laundry” não existia mais. Havia ali uma loja vazia com um aviso na vitrine: “O nosso último dia será 28 de Março de 2021. Fiquei muito triste. Espero que o Nick e a família estejam com boa saúde. Como escrevi no inicio do texto, não tenho dúvidas de que Nova York voltará a ter a pujança de sempre mas, infelizmente,  não sem deixar muitos Nicks pelo caminho…

*Fernando Goldsztein, empresário e fundador do “The Medulloblastoma Initiative”

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