‘A Lava Jato está incomodando tanto e a quem e por quê?’, questiona Janot

‘A Lava Jato está incomodando tanto e a quem e por quê?’, questiona Janot

Durante reunião do Conselho Nacional do Ministério Público, procurador-geral da República afirma que sua Instituição 'não tem bandeira, não tem ideologia'

Fausto Macedo, Ricardo Brandt e Julia Affonso

24 Agosto 2016 | 05h05

Rodrigo Janot. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Rodrigo Janot. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O procurador-geral da República Rodrigo Janot fez uma indagação enigmática durante reunião do Conselho Nacional do Ministério Público nesta terça-feira, 23. “A Lava Jato, hoje, está incomodando tanto e a quem e por quê?”

Janot fez essa colocação ao final de um longo pronunciamento ao colegiado em reação aos ataques desfechados à Procuradoria pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal.

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Gilmar Mendes atribuiu à Procuradoria o vazamento de detalhes da suposta delação do empreiteiro Léo Pinheiro, da OAS, que teria citado o ministro do STF, Dias Toffoli.

Janot afirma que jamais chegou ao Ministério Público Federal, em meio às negociações com a OAS que já se arrastam há seis meses, qualquer citação a Toffoli. O procurador disse que é ‘um estelionato delacional, um factóide, uma invencionice’.

Ao rebater as acusações de Gilmar Mandes, o procurador foi enfático. “O Ministério Público não tem bandeira”. Segundo ele, os procuradores realizam investigações com isenção.

“O que me chamou a atenção nesse episódio desses dois ou três dias é que o Brasil vive um jogo Fla-Flu, um jogo de dois lados, e nesse jogo o Ministério Público tem apanhado de ambos. Portanto, estamos desagradando a ambos os lados. Na minha visão é um sinal positivo. Caminhamos bem porque não estamos agradando a lado algum. Não temos bandeira, não temos ideologia, não temos parte, não temos lado. Temos o lado da investigação dos fatos.”

Janot reafirmou que nenhuma informação sobre Toffoli chegou ao Ministério Público. Ele diz que foi criado ‘um factóide’.

“Essas reações me fizeram pensar muito. Fizemos aqui (recentemente), neste Conselho Nacional do Ministério Público, um evento sobre grandes casos criminais Brasil-Itália. O que está acontecendo neste exato momento com as investigações da Lava Jato não é novidade. Isso aconteceu exatamente na Itália (em meio à Operação Mãos Limpas).”

Janot. “Eu reafirmo: essa pretensa negociação (com a OAS) não é coisa de agora. São seis meses de duríssimas negociações. Nenhum fato, ou nenhum anexo, encaminhando ou insinuando a participação de um alto magistrado da República chegou por qualquer forma ao Ministério Público Federal. Já compraram a tese do vazamento. A gente vaza aquilo que tem. Se você não tem a informação, você vaza o que? Vaza o nada. Não sei a quem interessa essa cortina de fumaça que tem intuito indireto para sugerir a aceitação do Ministério Público Federal por determinada colaboração.”

Janot reiterou uma frase que usa sempre que sua Instituição sofre ataques. “O Ministério Público tem o couro grosso. Não sofre pressão de poder econômico, não sofre pressão de partido político, de poder da República. O Ministério Público tem algo que a Constituição lhe atribuiu e que eu espero que não seja retirado, numa eventual reforma futura, que é a autonomia e independência na sua atuação.”

Aos conselheiros que o ouviam, Janot acrescentou. “Eu me senti na obrigação de prestar essas informações para evitar que o factóide se espalhe. Reafirmo que não existiu nenhum fato imputado a nenhum magistrado. Essas reações que se seguiram eu não consigo identificar a razão pelas quais existem. Nego que, em qualquer tempo da investigação, tenhamos buscado pessoas.”

Ele disse que o Ministério Público investiga os fatos ‘de maneira equilibrada’.

“Não é agradável ao Ministério Público abrir uma chaga, mas é sua função faze-lo.”

Ao final do pronunciamento, o procurador-geral da República fez a indagação enigmática.”A Lava Jato, hoje, está incomodando tanto e a quem e por quê?”

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