A jornada à tríade do conhecimento para a criação de negócios de impacto

A jornada à tríade do conhecimento para a criação de negócios de impacto

Claudio Dipolitto*

15 de dezembro de 2020 | 03h45

Claudio Dipolitto. FOTO: DIVULGAÇÃO

Se muitos empreendedores já eram movidos pelo sentimento de propósito, 2020 trouxe uma pitada a mais desse tempero: é cada vez mais clara a convocação para basearmos nossas iniciativas no encontro entre o que amamos e aquilo que o mundo precisa. Neste cenário, o desafio é claro: como podemos apoiar potenciais empreendedores na criação de negócios de impacto, baseados em propósito, que enderecem problemas reais ou criem oportunidades efetivas, mas que possam se sustentar a longo prazo? Como conciliar o resultado econômico com a geração de valor compartilhado? Como compatibilizar economia e desenvolvimento para todos? Ou, em outras palavras, como criar um “negócio do bem” que quanto mais compartilha valor, mais lucra?

O desafio de facilitar esses negócios vem por meio de mentores que, conectados com saberes e experiências, levam o empreendedor a entender a importância de “começar pelo propósito” e apontam possíveis trilhas a serem desbravadas na reinvenção do mundo, propiciada pelas novas tecnologias e demandadas pelas inúmeras carências e possibilidades apontadas pelos 17 ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da ONU. Para facilitar essa busca, a dica é investir em modelos visuais, que são mais fáceis de sintetizar os elementos essenciais dos pensamentos e discursos, explicitando o conhecimento tácito. É um caminho, também, para ajudar empreendedores e mentores a criar uma linguagem comum, compartilhando modelos mentais e a representação de onde está e como é para o que será e onde se quer chegar.

Para integrar a evolução das premissas, alternativas e decisões do projeto, é essencial, alinhar o ‘propósito de vida’ com o ‘propósito do negócio’, o qual envolve três passos: olhar para dentro, olhar para fora e olhar para frente. A viagem interna nem sempre é confortável e exige lançar mão de técnicas de introspecção e mindfulness, como meditação e dinâmicas, que podem nos levar a revisitar a criança interior, nos perguntando silenciosamente “o que aquela criança diria do adulto que me tornei e das escolhas que tenho feito?”. É entrar em contato com nossas crenças limitantes, liberar nossa capacidade de cocriar para se alinhar ao fluxo da vida, permitindo encontrar seu centro de onde se pode contemplar o redemoinho a nossa volta causado pela era da hiperconectividade. Tudo isso, mantendo a calma e unindo intuição e razão para escolher o próximo passo.

Já o ‘olhar para fora’ requer o exercício de uma visão solidária e plural da vida e do mundo, buscando a interseção entre o que é necessário e o que é possível. “O que é necessário” pode ser descoberto ao perceber o que nos parece incompleto ou errado, interpretando as faltas como oportunidades de inovação e entendendo que “o princípio do problema é o princípio da solução”, como diz o Taoísmo. Já “o que é possível” tanto pode ser prospectado nas bases de conhecimento técnico-científico, quanto aprendido pelo olhar atento a tantas soluções que surgem em um primeiro momento como improviso ou quebra-galho. Assim, se o olhar para dentro revela o que amamos e sabemos e o olhar para fora revela o que o mundo precisa, o “olhar para frente” completa essa visão 3D, ao expressar um propósito amplo ou ambicioso na forma de um projeto focado e atingível.

Essa interação tridimensional entre olhares para dentro, fora e frente gera uma espiral criativa tanto no plano individual, como no âmbito de um time que compartilha valores, visões de mundo e trabalha por um propósito comum. É, em resumo, a relação entre nosso propósito na vida e um modelo de negócio que passa pela definição do propósito do negócio. Ambos partem da razão de ser do empreendedor como indivíduo, de seu papel no mundo e de sua visão de negócio como uma organização que gera valor compartilhado, resultado daquela visão 3D. Mas, para construir um negócio de impacto baseado em propósito é preciso alicerçá-lo sobre uma base sólida que o torne viável.

É por isso que, ao iniciarmos um design estratégico, é preciso uma expertise de mentoria experiente para colocar o propósito como eixo central da jornada empreendedora. Ao associar “o que amamos” com “o que o mundo precisa” e “o que sabemos fazer”, descobrimos nossa missão e a alimentamos com a nossa paixão. Ao “buscarmos nosso sustento” a partir do que “sabemos fazer” e “daquilo que o mundo precisa”, alinhamos, por fim, nosso fazer com a nossa vocação. Empregamos os 17 ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, tanto como bússola, que aponta para “o que o mundo precisa”, quanto como radar, que reflete se nosso caminho nos leva ao propósito pretendido.

*Claudio Dipolitto é mentor de negócios de impacto. Diretor de Inovação na ABMEN, coordena o MentorsLab. Doutor pela COPPE/UFRJ. Foi consultor e facilitador no plano diretor do Parque Tecnológico da UFRJ. Ministrou oficinas de Projeto de Negócios Inovadores nas Incubadoras da Coppe/UFRJ e da UFF

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