A insustentável narrativa política diante do VAR das redes sociais

A insustentável narrativa política diante do VAR das redes sociais

Natália Lambert*

26 de maio de 2021 | 07h00

Natália Lambert. FOTO: DIVULGAÇÃO

Instalada no fim de abril no Senado, a Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid tomou conta da rotina do poder em Brasília, da imprensa e de grande parte da população conectada. Além das análises sobre quem ganha e quem perde a cada depoimento, o que a CPI mostra é o desembocar de uma guerra de narrativas que o país aprimorou nos últimos anos – mais intensamente desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Por trás do embate político está o poder da comunicação. A CPI virou laboratório de análise de narrativas, aferidas em tempo real pelo VAR das redes sociais, tendência observada de forma menos decisiva na CPMI das Fake News, em 2019. E políticos – ainda sem entender as novas dinâmicas – aproveitam o ambiente para testar o nível de apreensão das mensagens, os limites e, por óbvio, a popularidade.

“A batalha pelas mentes se joga na comunicação”, nas palavras do sociólogo espanhol Manuel Castells. Do dom de se comunicar, surgem as diferenças entre os grandes políticos e os simples ocupantes de cargos mandatários. Entretanto, a partir do acesso universal à internet e às redes sociais, a maneira de tratar a informação mudou significativamente, e o terreno, muitas vezes, se revela movediço.

Hoje, cada pessoa com smartphone nas mãos é um potencial comunicador. Os veículos tradicionais de informação deixaram de ser protagonistas. Surgiram os criadores e seguidores de bolhas informacionais, regidas por blogs, sites alternativos e listas de transmissão. Em uma das vertentes do mundo on-line, o ambiente democrático da internet também abriu as portas para fábricas de narrativas.

No Brasil, o melhor exemplo culmina na eleição do presidente da República, Jair Bolsonaro, em 2018. Impulsionado por uma gigantesca máquina de disparo de mensagens nas redes sociais, o então deputado federal – tratado como personagem caricato, sem apoio de grandes partidos, sem tempo de propaganda política – chegou ao posto mais alto da República amparado nas mais diversas narrativas.

A CPI da Covid demonstra, porém, que a máquina bolsonarista não tem mais o mesmo poder de convencimento. Enquanto apoiadores do governo tentam emplacar a narrativa de que o presidente da República fez tudo que pôde para conter a pandemia, grupos organizados na internet expõem vídeos, imagens e documentos que confrontam o argumento – material amplamente utilizado por senadores na CPI.

Na prática, isso aconteceu no depoimento do ex-secretário de Comunicação do governo federal Fábio Wajngarten, em 12 de maio. Apesar da fala estrategicamente construída para não comprometer Jair Bolsonaro – com frases repetidas à exaustão, como “o presidente sempre disse que compraria toda e qualquer vacina uma vez aprovada pela Anvisa” –, faltou o essencial: consistência.

Diante de milhares de expectadores, o ex-secretário emudeceu ao ser confrontado com as próprias mentiras. Em uma delas, Wajngarten disse não ter aprovado a campanha publicitária “Brasil não pode parar”, em março de 2020, pois estava afastado do trabalho com Covid. Rapidamente, perfis no Twitter enviaram ao senador Rogério Carvalho (PT-SE) uma live do mesmo período em que Wajngarten dizia a Eduardo Bolsonaro estar trabalhando normalmente.

Uma boa narrativa precisa de consistência. Uma fala pública, principalmente, em juízo, tem de ser amparada no tripé lógica, coerência e veracidade. Não há nada mais efetivo do que um argumento que não pode ser refutado. Elementos comprobatórios que o depoente leva a uma CPI precisam se manter em pé. Um depoimento baseado em premissas falsas gera efeitos adversos enormes à imagem do depoente e, no caso de Wajngarten, por pouco não lhe rendeu uma passagem pela cadeia.

Uma trama criada a partir de factoides, e não de fatos, tem, sim, potencial de convencimento, especialmente, entre aqueles que comungam da mesma visão de mundo, no jogo do viés de confirmação. Entretanto, ela não se sustenta indefinidamente no mundo das redes sociais. Afinal, até quando é possível esgarçar uma narrativa sem lastro?

A CPI da Covid demonstra que a mesma máquina de disseminação de narrativas em redes sociais que levou Bolsonaro à Presidência da República pode colocá-lo à beira de um processo de impeachment – improvável – e de um desgaste eleitoral irreversível. Análise de redes feitas pelo cientista de dados Pedro Barciela, a partir de menções à CPI no Twitter em dias de depoimentos, mostra um isolamento cada vez maior dos bolsonaristas, apesar do esforço duas vezes maior dos perfis.

Por que a estratégia comunicacional que alçou Bolsonaro à Presidência encontra dificuldades para emplacar novas narrativas? Há limite para a guinada de versões? Qual o tempo necessário para a apreensão do público? Narrativas baseadas em factoides precisam manter uma certa coerência?

As dinâmicas contemporâneas da comunicação provocam mais perguntas do que respostas. Essas precisam de tempo. Por enquanto, o sentimento é de reflexão. Reflexão que transcende o atual presidente. Ela vale para políticos, instituições, empresários e qualquer pessoa que se comunica. Os tempos mudaram, mas uma premissa nunca deixará de ser verdadeira: a importância do domínio da arte de se comunicar bem.

*Natália Lambert, jornalista, consultora da TORRE Comunicação e Estratégia

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