A ineficiência do financiamento estudantil no Brasil. Por que ainda patinamos tanto nesse assunto?

A ineficiência do financiamento estudantil no Brasil. Por que ainda patinamos tanto nesse assunto?

André Dratovsky*

04 de agosto de 2021 | 04h45

André Dratovsky. FOTO: DIVULGAÇÃO

Investir em capital humano é um caminho crítico para a evolução sustentável em qualquer sociedade, sobretudo em países em que a educação é altamente dependente dos instáveis e imprevisíveis fundos públicos.

O surgimento de soluções inclusivas de crédito, tanto para estudantes quanto para instituições de ensino, tem sido primordial para a quebra de paradigmas fortemente enraizados culturalmente, tais como, a necessidade da graduação tradicional como premissa para inclusão e sucesso profissional e econômico.

Figuramos em último lugar, na 64ª posição, no ranking de competitividade na América Latina, segundo o recente estudo do IMD World Competitiveness Center. O Brasil é uma das menores populações com ensino superior na região, e isso não é louvável para um País em crescente desenvolvimento.

Se de um lado as edtechs têm protagonizado em ganho em eficiência, qualidade e redução de custos na educação, por outro, as fintechs estão mudando o cenário pela inclusão socioeconômica brasileira, cujos resultados em inserção no mercado de trabalho e geração de renda, são tangíveis e transformadores.

O universo de possibilidades é gigante, mas também igualmente desigual na proporção. Importante dizer que, dois, em cada 100 brasileiros, contam com financiamento privado.

Jovens de baixa renda, na faixa de 18 a 25 anos, sem garantias, bens próprios, score de crédito e sem histórico de relacionamento com o mercado financeiro, como vão comprovar renda se não conseguem a formação necessária ao primeiro emprego?

De que forma convencem uma instituição tradicional de que precisa e é merecedor de crédito para estudar, ou ainda que vai conseguir pagar depois de concluir o curso?

A resposta para isso está na capacidade de enxergar como determinado curso, somado ao esforço e competência, será capaz incluí-los no disputado ambiente profissional.

Enquanto não se inventa a famosa bola de cristal ou a resposta para “o ovo ou a galinha”, a solução emerge dos modelos de análise preditiva que, ao apoiar cursos de curta e média duração, e de alto impacto em empregabilidade, atenua em ritmo muito mais palpável o temível risco de crédito, a burocracia e ineficiências operacionais das instituições financeiras mais tradicionais.

Recapitulando o passado

A criação do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), um programa de ações sociais do governo federal que financia cursos de ensino superior, veio com a esperança de solucionar o problema de acesso à educação superior.

Sem tirar o mérito, o Fies investiu em duas décadas mais de 100 bilhões por meio de um programa pouco eficiente e nada sustentável do ponto de vista econômico. Regras mal estabelecidas e a ineficiência pública na gestão do programa, requereriam orçamento federal eterno e inviável para manter o número de beneficiados, tanto que culminaram na quase extinção da iniciativa.

Atualmente, o Fies acumula um prejuízo na ordem de 13 bilhões de reais, um valor altíssimo para ser custeado pela sociedade, muito provocado pela inadimplência de alunos que, mesmo depois de formados, não tiveram condições de pagar a dívida.

O motivo pode ser variado, desde a negligência em quitar as parcelas, ausência de perspectivas quanto à carreira, baixa correlação do currículo educacional com as competências demandadas pelo mercado ou ainda o próprio desincentivo que os recursos públicos trouxeram à competitividade entre as instituições de ensino.

A falta de um olhar holístico que vá na essência do problema e reverta o modelo de financiamento em algo sustentável, não é um problema que assola somente o Brasil.

Nos Estados Unidos, país de primeiro mundo, a dívida com crédito estudantil supera $1,3 trilhão, um grande gargalo que os americanos aprenderam a conviver e que, em não raros casos, envolve até mesmo hipotecas de imóveis.

A meu ver, a principal entrave do setor educacional é a ausência de uma análise preditiva baseada no perfil comportamental, no potencial de desenvolvimento profissional, na aposta do conceito de lifelong learning – aprendizado ao longo da vida.

Outro desafio é avaliar os cursos que trazem uma bagagem das competências atuais que o mercado exige e que, inevitavelmente e felizmente, podem trazer reais chances de empregabilidade.

Com o avanço da inteligência artificial é possível criar arquétipos, perfis de alunos que levam em conta suas particularidades, especialmente, o potencial de desenvolvimento e visão de carreira. Em outras palavras, uma modelagem de soluções customizáveis e inclusivas, pelas quais as escolas que gritam por alternativas possam abarcar cada vez mais jovens esforçados e carentes economicamente.

A combinação da melhoria da experiência de crédito com o impacto social, é um mundo possível. Essa realidade “força”, no bom sentido da palavra, que mais fintechs apareçam com propostas inovadoras e disruptivas – e isso é extremamente positivo.

Essa onda de novos empreendedores, ávidos por inovação e amantes por fazer diferente, influenciam e provocam, de certo modo, o mercado financeiro para que reveja seu modus operandi, visão do modelo de negócio e de atuação.

O que não falta à essa nova geração de empreendedores destemidos – e aqui me incluo, é o apetite para desconstruir um sistema financeiro engessado, ineficiente e restrito a poucos, para um modelo inteligente, inclusivo e sustentável.

Usemos, portanto, de toda essa energia e coragem para apoiar esses milhões de jovens brasileiros ávidos por oportunidade de estudar e ingressar no mercado de trabalho.

*André Dratovsky é CEO e fundador da Elleve, fintech de crédito estudantil

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