A indústria brasileira pede passagem

A indústria brasileira pede passagem

Ellen Gonçalves*

22 de fevereiro de 2021 | 08h45

Ellen Gonçalves. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em meio à pandemia da Covid-19 que assola o mundo temos que refletir sobre temas que não podem mais esperar. Até mesmo porque o cenário desolador que vivemos desde o início de 2020 nos escancarou algumas realidades que devemos enfrentar e reagir mediante nossa quase omissão. Uma delas é a indústria nacional. Há muitos anos o Brasil praticamente abandonou seu projeto de industrialização. Nosso parque industrial foi sucateado em grande parte dos segmentos e levou a reboque a inovação, fundamental para a dinâmica do setor.

Passamos a trocar grãos por tecnologia, vendendo para os chineses boa parte de nossa produção no campo e importando deles equipamentos de última geração, medicamentos, roupas e muito mais. Nos tornamos China-dependentes. Tudo bem que o país asiático é hoje a “indústria do mundo” e não estamos sozinhos, mas o caso brasileiro é preocupante, pois nossos governos, sucessivamente, contribuíram para o desmonte de nossa indústria, abrindo mão de seu desenvolvimento.

Vimos o tempo passar, as tendências se configurarem e se consolidarem e ficamos estagnados. A indústria evoluiu e não sabemos por onde começar se ainda quisermos retomar nossas atividades industriais para reduzir nosso grau de dependência. A indústria 4.0 bate à porta e não temos recursos tecnológicos e de infraestrutura para abri-la de imediato (será que queremos abri-la?).

Sacudidos pelo Coronavírus em março do ano passado, fomos rapidamente ameaçados com a falta de componentes eletrônicos. Fabricados na China, eles não podiam ser importados, pois o primeiro epicentro da crise sanitária estava em lockdown e, portanto, com suas atividades suspensas. O mundo experimentaria algo imprevisível e nada seria tão simples como gostaríamos. Com uma produção industrial enfraquecida nos restava aguardar melhores notícias e torcer para que o estrago não fosse tão grande do ponto de vista de abastecimento.

Passados os primeiros meses vimos os números de produção da indústria brasileira despencarem, segundo o IBGE: 27,1% entre março e abril. Uma queda histórica. No acumulado do ano de 2020 ficamos em 4,5% negativos. O distanciamento social, a queda no consumo e o medo do futuro próximo contribuíram para esse resultado, mas a falta de insumos foi o grande vilão. Faltaram álcool em gel, respiradores, componentes para equipamentos hospitalares, automotivos e de informática. Estava tudo na China. Até mesmo as simples máscaras que aprendemos a fazer em casa, o que revelou o tamanho do buraco da nossa indústria.

Vivemos um choque de realidade que foi ainda mais escancarado quando começamos a falar das vacinas. A sigla IFA, de Ingrediente Farmacêutico Ativo, passou mais recentemente a fazer parte de nosso vocabulário e de nossas preocupações. Aprendemos que sem ele não temos vacina e os principais centros produtores de imunizantes do País, como o Instituto Butantan e a Fiocruz, não os fabricam em quantidade suficiente para outras vacinas e ainda não o fazem para as que são contra a Covid-19. Desta vez descobrimos que a Índia é outra potência no que diz respeito a insumos farmacêuticos.

Entendemos que a normalização do fornecimento do IFA ao Brasil é uma questão de tempo, mas ainda há outro entrave. Temos seringas e agulhas? Novamente, não. Dependemos dos chineses, que estão vacinando a sua numerosa população e fornecendo para outros países. Como algo tão simples não é fabricado no Brasil? A falta de incentivo para o desenvolvimento da indústria brasileira, a tributação praticada no País e o custo Brasil são alguns dos entraves, mas depois desta difícil experiência talvez seja o momento de repensar o que queremos para o nosso País e como faremos acontecer aquilo que consideramos relevante para nosso futuro econômico e social.

Lembremos que a indústria é um dos setores que mais emprega no Brasil e também o que segue as leis trabalhistas com mais rigor, o que inclui trabalho formal, respeito à carga horária e pagamento de benefícios, entre outros itens que estão presentes na CLT e nas convenções sindicais. Relegar nossa indústria a uma simples espectadora e colocar este setor no ostracismo, condenando-o ao sucateamento, e não vislumbrar um país moderno e justo é incompreensível como projeto de país e de futuro para esta e para as próximas gerações.

Que a pandemia que nos trancou em casa, nos deixou marcas irreversíveis e nos tirou tantos momentos festivos possa nos ensinar que precisamos nos repensar como sociedade produtiva. Sabemos que a Ciência venceu. Que ela possa ser a luz para outras vitórias e que nossa indústria renasça das cinzas.

*Ellen Gonçalves é advogada, sócia-fundadora de Pires & Gonçalves – Advogados Associados. Especialista em Direito do Consumidor. Referência em Resolução de Conflitos e em Contencioso de Alta Complexidade. Autora dos livros O Direito do Consumidor e os Juizados Especiais Cíveis – Editora Thonson, de 2006, e Uma Lei para todos, Atelier de Conteúdo, 2020

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