A incerteza do instante

A incerteza do instante

José Renato Nalini*

06 de novembro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O sociólogo José de Souza Martins, cuja lúcida contribuição para o pensamento brasileiro é constante e se intensifica nesta policrise, oferece mais uma instigante obra: “Sociologia do Desconhecimento – Ensaios sobre a incerteza do instante”, publicada pela Editora UNESP. Por sinal, a intelectualidade precisa investir nas Editoras Universitárias, último bastião de resistência para a disseminação de ideias que vão além do imediatismo consumista. Lamentavelmente, os governos se desinteressam dessa missão. Talvez um reforço na convicção de que povo esclarecido é povo que reivindica e exige observância de normatividade flagrantemente descumprida.

José de Souza Martins tem razão ao afirmar que “o que torna uma sociedade sociologicamente fascinante, é que ela seja, por excelência, a sociedade das diferenças sociais, não porque seja a sociedade das diferenças econômicas radicais entre ricos e pobres, que é seu aspecto mais negativo, mais revelador das contradições sociais, e sim porque é a sociedade de uma grande diversidade de modos de viver, conceber, perceber, interpretar, conhecer e participar do mundo social”.

A complexa e heterogênea sociedade tupiniquim é fascinante, de um lado, mas aterradora de outro. A pandemia escancarou aquilo que se intuía mas que se procurava esconder: somos milhões os que passam fome! Milhões os desempregados! Milhões os desprovidos de moradia, saneamento básico, saúde e educação de qualidade. Muitos milhões os desalentados e sem perspectivas, diante de um cruel desgoverno, cego e surdo ao clamor famélico das massas.

Com rigor científico e linguagem técnica, o sociólogo Souza Martins faz diagnóstico preciso desta era plúmbea, que não permite se confira crédito ao ufanismo tosco dos que só enxergam o lado que lhes convém. Não, “a sociedade pós-moderna que é a dessa temporalidade de urgências e de impaciências é, enfim, a sociedade do instante. A da temporalidade da incerteza, a do agir pessoal e coletivo manipulável e manipulado, o tempo da reflexão necessária à práxis objetivamente usurpada do sujeito do agir histórico”.

A tragédia brasileira decorre da insensibilidade dos profissionais da política. Estes cuidam de eleições e da matriz da pestilência chamada reeleição. Nada têm a ver com as mazelas desse conjunto de sofredores chamado “povo”. Martins vai ao ponto: “nenhuma sociedade que tem alguns milhões de desempregados e outros tantos milhões trabalhando precariamente, milhares de pessoas vivendo nas ruas e muitas vivendo do lixo, muitas delas ainda crianças, gente sem lugares sem futuro, é preciso repensar a interpretação que dela temos feito e fazemos”. Essa interpretação se faz, mas em nichos restritíssimos, de pensadores sensíveis como José de Souza Martins. Não interferem na condução da coisa pública, direcionada à satisfação dos mesmos poucos de sempre, alheios à infelicidade coletiva.

Transparece em toda a obra o pecado mortal da omissão. Faltou e falta ao Brasil uma educação de excelência. Educação que é coisa muito séria e importante para se deixar – exclusivamente – a cargo do Estado ególatra e onipresente. José de Souza Martins observa que “nossos pais sabiam como nos educar, só não sabiam educar para quê. Criaram uma geração liberalmente birrenta, cheia de direitos e isenta de deveres. Achavam que a liberalidade era em si mesma libertadora. Com essa formação, cada um saberia, depois, quem era e o que querer. Não sabem. Perderam-se no labirinto das liberdades abstratas”.

Esse o quadro presente: “nas escolas, crianças e adolescentes irritados- porque se sentem infelizes e inseguros – são contra, contra o que não são. São, não sendo. são um futuro que é um abismo de incertezas, privado de esperança e do sentido de pertencimento. A escola é a grande indicação de que nos perdemos, de que não chegamos lá, ao lugar onde está nossa face e nossa identidade, o que pode dar sentido ao nosso querer”.

A política partidária contaminou toda a gigantesca estrutura educacional mantida pelo Estado. O interesse imediato é avaliar a capacidade mnemônica, para obter classificação que enalteça o governante, sempre ávido por empolgar novas posições na hierarquia da profissão política. Não se forma para pensar, mas adestra-se para decorar. Daí a infelicidade coletiva do alunado, a evasão no Ensino Médio, a violência até cruenta nos espaços que deveriam consolidar afetos e solidificar caráter. Tem razão José de Souza Martins ao se sentir inquieto: “nossas inquietações desta hora são as inquietações decorrentes de mais um episódio de retorno cíclico ao lugar de onde não se sai. Expressam um traço persistente de nosso modo de ser. Parece uma condenação à impossibilidade de encontrar saída”.

Se saída houver, virá de consciências bem formadas como a de Souza Martins, um sociólogo predestinado a ser um agente de transformação. Ler seu livro é essencial para todos os que se afligem com esse desconforto que só contamina pessoas de bem.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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