A inadiável reestruturação do setor aéreo diante da aprovação das vacinas contra a covid-19

A inadiável reestruturação do setor aéreo diante da aprovação das vacinas contra a covid-19

Ana Carolina Reis do Valle Monteiro*

23 de dezembro de 2020 | 07h30

Ana Carolina Reis do Valle Monteiro. FOTO: DIVULGAÇÃO

A Pandemia de COVID-19 impactou sobremaneira todas as áreas da economia, contudo o impacto na aviação tem sido excepcionalmente severo. De acordo com a Organização Internacional de Aviação Civil, as companhias aéreas de todo o mundo devem sofrer uma perda de até US $ 392 bilhões de receita operacional bruta em 2020.

Na história da aviação jamais houve uma crise tão grave e duradora como a que enfrentamos hoje em razão da pandemia de COVID-19. Mesmo com anúncios de vacinas que coloquem um fim na pandemia, a indústria da aviação ainda questiona quando a disseminação do vírus começará a diminuir e quando os consumidores voltarão a ter apetite para viajar, notadamente no que se refere às viagens internacionais.

Com o objetivo de evitar a falência, todas as companhias aéreas tiveram que se reestruturar (judicialmente ou extrajudicialmente), realocando seus bens através da devolução de aeronaves, negociações com stakeholders e cancelamento ou suspensão de rotas.

Tudo isso em conjunto com um tímido apoio governamental brasileiro ao setor aéreo. A proposta de financiamento do BNDES, elaborada no fim de março, não foi bem recepcionada no setor, sendo considerada cara e de uso restrito.

Nesse contexto de crise algumas companhias aéreas perceberam, com rapidez, que o transporte de cargas e as viagens domésticas seriam mais demandadas e investiram em trechos nacionais ou reaproveitaram suas aeronaves para o transporte internacional de cargas.

E é aqui que a aprovação das vacinas tem seu mais importante papel na reestruturação do setor aéreo.

Isso porque, diversas vacinas deverão ser amplamente distribuídas à população mundial com urgência e cuidados especiais de refrigeração e armazenamento. Assim, as empresas e aeroportos que forem capazes de se reestruturar e dominar essa logística vencerão a crise com relevante vantagem competitiva.

Durante o processo de imunização outros aspectos devem ser analisados para adequar a demanda, angariar investimentos e gerar receitas. Os principais são: (i) a revolução digital e a nova forma de trabalho remoto; (ii) a reestruturação financeira das companhias; e, por fim (iii) o retorno da demanda.

(i) A Revolução Digital No Mercado de Trabalho:

Em primeiro lugar, é importante notar que a pandemia trouxe uma revolução na conectividade e provavelmente a redução de viagens a trabalho virá para ficar. A videoconferência se tornou eficiente e barata, e agora é o meio preeminente para trabalhar em um mundo globalizado.

Se por um lado a interconectividade virtual inibe as viagens aéreas ao permitir que as pessoas trabalhem com mais eficiência em qualquer lugar (“anywhere office”), de outro, o transporte de cargas, para manter essa revolução digital e o conforto dos trabalhadores, necessariamente tem que crescer para acomodar essa nova realidade.

Embora a revolução tecnológica aponte para uma aparente competição com a atividade fim das companhias aéreas, a adequação do setor à nova realidade tem a capacidade de estimular a demanda e ampliar as margens de lucro, desde que seja acompanhada de uma profunda reestruturação do modelo de negócios destas companhias.

Ciente desta revolução, a Azul ampliou sua participação no mercado de transporte aéreo de cargas de 30% para 40%. A empresa espera encerrar 2020 com um aumento de 28% na receita de operação de cargas sobre o ano passado, enquanto a receita advinda do transporte de passageiros deve recuar 42% no ano.

Um dos motivos é que a inovação em tecnologia na área de saúde pode oferecer vantagens competitivas às companhias aéreas e aos aeroportos. Vale ressaltar, que o transporte e armazenamento de vacinas será o grande captador de receitas em 2021.

Além disso, os sistemas de mobilidade aérea urbana estão sendo cada vez mais usados. Por essa razão diversas startups de drones estão fazendo parceria com grandes corporações, para distribuir vacinas e outros suprimentos médicos para áreas rurais e mais remotas.

A aprovação das vacinas e sua ampla e imediata distribuição podem servir como impulso para startups que buscam obter apoio público e governamental para entregar categorias mais amplas de carga usando drones.

(ii) A Reestruturação Financeira das Companhias Aéreas

Assim como se deu em crises anteriores, a pandemia provocou uma onda de Recuperações Judiciais e falências, principalmente entre companhias aéreas, como Latam, Avianca, Aeromexico, Norwegian Airlines, Virgin Austrália, entre outras.

Uma opção que as companhias aéreas e outros participantes do setor invocaram para preservar o dinheiro é negociar com lessors e credores. A pandemia deixou lessors em todos os setores, incluindo aviação, marítimo e imobiliário, com escolhas rígidas quando se trata de lidar com partes insolventes: negociar ou tentar retomar e revender no mercado de um comprador.

Na indústria da aviação, um substancial excesso de oferta de aeronaves provavelmente se traduzirá em um declínio no valor de todos os tipos de aeronaves. Isso, combinado com os desafios de avaliação e deterioração das taxas de arrendamento, significa que os credores e arrendadores precisarão encontrar novas maneiras de trabalhar com companhias aéreas que não podem cumprir seus compromissos financeiros.

As alternativas potenciais para a reintegração de posse incluem reduções de aluguel, diferimento de aluguel ou uma combinação dos dois. Em qualquer caso, essas soluções de reestruturação adaptadas individualmente continuarão sendo uma característica do mercado, já que as companhias aéreas continuam a sofrer dificuldades, provavelmente levando à sobrevivência dos lessors mais bem capitalizados e mais bem administrados capazes de prosperar nas condições atuais.

Nesse contexto, a compra e venda de ativos estressados é uma alternativa valida e muito eficaz para o soerguimento de empresas em crise e alavancagem de novos entrantes.

Vale lembrar que uma forma de reestruturação muito utilizada nas crises anteriores (exemplo: a tragédia de 11 de setembro) foi a atividade de M&A após o aumento da demanda.

Isso pode criar oportunidades de compra para compradores bem posicionados, patrocinadores de capital privado e outros players. As aquisições potencialmente anticompetitivas podem agora se beneficiar das defesas da empresa em dificuldades que estavam menos disponíveis antes da pandemia.

Este aumento previsto na atividade de M&A ainda não se materializou, provavelmente em parte devido à incerteza sem precedentes que caracteriza a duração da pandemia, bem como o apoio governamental e o uso de opções de financiamento criativas, que permitiu às empresas evitar crises de liquidez. Os vendedores provavelmente também ficarão relutantes, temendo vender em mínimos históricos. Mas devemos lembrar que a agilidade neste processo é essencial, caso contrário, estaremos diante de ativos se deteriorando com o tempo (“melting icecubes”).

No entanto, com maior certeza e persistentes desafios de liquidez no horizonte, acreditamos que a pandemia acabará estimulando a atividade competitiva de compra e venda de ativos estressados, fusões e aquisições de maneira semelhante a outras crises históricas.

(iii) O Retorno da Demanda:

Embora o COVID-19 tenha muitos impactos de longo prazo na indústria da aviação, acreditamos que uma queda prolongada na demanda do consumidor de turismo não será um deles. O que se verifica é uma demanda reprimida, menos concorrentes e uma perspectiva de preço de combustível pode resultar em uma recuperação total no final de 2021 ou início de 2022.

Além disso, ao contrário de crises anteriores, como 11 de setembro – que resultou em incerteza prolongada sobre a segurança das viagens aéreas – diversas vacinas amplamente distribuídas, junto com a reformulação dos sistemas de ventilação das aeronaves e a realidade de que mesmo durante a pandemia, o pessoal das companhias aéreas disseminou a doença em números maiores do que a população em geral.

Em suma, embora a COVID-19 tenha impedido a demanda por viagens aéreas, existe a confiança de que o setor de aviação acabará se recuperando. E, ao fazê-lo, será a base para o soerguimento da economia global e o fluxo relacionado de pessoas e bens, que ocorrerá na recuperação pós-pandemia.

Algumas mudanças impulsionadas pela pandemia sobreviverão à crise. Isso inclui o tamanho dos participantes da indústria, com os maiores, mais capitalizados e mais bem gerenciados exibindo maior resiliência ao choque sistêmico. A composição das frotas será composta por aeronaves reaproveitadas, reformadas ou aposentadas.

Mas a demanda acabará retornando e o setor se recuperará. A grande prova dessa confiança no mercado foi a grande quantidade de fundos interessados em financiar as empresas que entraram em recuperação judicial.

Assim, não podemos pensar na aprovação das vacinas como uma simples esperança para o mercado. Os players devem se reestruturar e se preparar para um pós-pandemia extremamente competitivo, sendo imperativa a reestruturação de todo o mercado do setor aéreo.

*Ana Carolina Reis do Valle Monteiro, advogada do Kincaid – Mendes Vianna Advogados, LLM em Contencioso pela Fundação Getúlio Vargas, pós-graduação em Direito Civil Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica, Especialização em Falências e Recuperação Judicial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/RJ), Especialização em Business Law pela University of Califórnia Los Angeles (UCLA) e Especialização em Negotiation pela Yale University

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