A importância dos negócios de impacto social

A importância dos negócios de impacto social

Emília Rabello*

12 Novembro 2018 | 13h00

Emília Rabello. FOTO: SERGIO CADDAH

O número de empreendedores que desenvolvem negócios de impacto social tem crescido no Brasil. Um levantamento realizado, em parceria, pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), mostra que existem mais de 800 empresas atuando neste modelo de negócios em todo o país. Os dados globais também são interessantes. Os negócios de impacto social têm movimentado cerca de US$ 60 bilhões e registrado aumento aproximado de 7% ao ano, segundo a Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE), uma rede de empreendedores de países em desenvolvimento.

Outra pesquisa realizada pela Aspen, com a Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), revela que foram alocados US$ 1,3 bilhão em investimentos de impacto na América Latina em 2014 e 2015. O Brasil é considerado o segundo maior mercado da região.

O conceito de negócios de impacto social ainda é novo no Brasil e muitas pessoas confundem a atuação dessas empresas com filantropia. O objetivo é ampliar as perspectivas das pessoas de baixa renda, que muitas vezes são marginalizadas pela sociedade, gerar renda e autonomia financeira. As empresas neste universo oferecem soluções escaláveis para problemas sociais da população das classes C, D e E que necessitam de serviços básicos como educação, saúde, habitação e emprego.

No Brasil, segundo o último censo realizado pelo IBGE, cerca de 168 milhões de pessoas integram as faixas de renda mais baixas. E foi com o olhar voltado para esta população que criei, em 2012, o Outdoor Social, negócio pioneiro no país, que prevê a instalação de placas, com campanhas de educação, saúde e publicitárias, em fachadas de casas localizadas em comunidades e periferias, gerando renda extra para os moradores. Entre os objetivos desse negócio social, além do mais óbvio que é gerar renda, estão: impactar as vidas dessas pessoas, criar oportunidades de trabalho e financiar projetos educacionais para os mais jovens. Presente em todos os Estados brasileiros, o negócio é um sucesso e, nos últimos cinco anos, gerou R$ 7,5 milhões em renda, beneficiando mais de 30 mil famílias.

Debater a importância e o alcance dos negócios sociais nunca foi tão oportuno quanto neste momento, quando acontece um dos eventos que discute o cenário dos negócios de impacto social no mundo, a 9.º edição do Global Social Business Summit (GSBS), nos dias 8 e 9 de novembro, em Wolfsburg, na Alemanha. O evento é o principal fórum de negócios sociais do planeta e fomenta a discussão e a colaboração entre os profissionais que atuam no setor.

Iniciativas como o Global Social Business Summit são muito importantes para que empreendedores do segmento de negócios de impacto social entendam e se informem sobre ações realizadas mais especificamente em países em desenvolvimento e também em outros países da Europa, Ásia e África. A troca de experiências para alavancar negócios já existentes ou criar novas possibilidades dentro do universo de negócios sociais é fundamental.

Existem diversos negócios de impacto social no mundo, um deles foi criado pela Grameen Shakti, empresa que vende painéis de energia solar, especialmente para a população rural de Bangladesh. Esse sistema permite aos moradores criar novos negócios relacionados ao comércio local. Os beneficiados podem pagar os seus painéis solares em taxas mensais durante um período de até três anos. Em Bangladesh, cerca de 60% da população, em torno de 90 milhões de pessoas, não têm acesso à eletricidade, principalmente nas áreas rurais. E apenas 12% tem acesso à energia ao longo de todo dia, tornando muito difícil para o restante da população trabalhar e estudar à noite.

Outro ótimo exemplo de negócio de impacto social é o Grameen Danone Foods, que tem o objetivo de abordar duas principais questões sociais: o combate à desnutrição e o acesso à água potável. Este empreendimento social serviu como base para a fundação da Danone Communities, incubadora social que apoia e investe em empresas sociais em sete países: Bangladesh, Camboja, China, França, Índia, México e Senegal. Um dos focos do projeto é a necessidade de combater a falta de acesso à água potável e a desnutrição.

No Brasil, também há cases de empresas que atuam no segmento extremamente representativos, que fazem a diferença na vida de 12 milhões de pessoas que vivem em comunidades e periferias. O Programa Vivenda, por exemplo, oferece ao morador a oportunidade de reformar uma casa localizada em comunidade de forma rápida, a preço acessível e com qualidade. As obras são finalizadas em, no máximo, duas semanas, e os moradores podem financiar o custo em até quinze vezes, por meio do microcrédito. O estudo de tipologias intraurbanas do IBGE mostrou que 36 milhões de pessoas no Brasil vivem em condições precárias de moradia nas cidades. Ou seja, 38% dos habitantes de áreas urbanas têm qualidade de vida com nível baixo ou precário.

Os negócios de impacto social têm mudado a vida de milhares de pessoas das classes populares. A importância dessas iniciativas é indiscutível. E por isso é fundamental que cada vez mais empreendedores criem negócios que melhorem ou mesmo resolvam os problemas sociais no Brasil e em outros países.

*Emília Rabello é fundadora do Outdoor Social

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