A importância dos cultos online em época de isolamento social

A importância dos cultos online em época de isolamento social

Tomás Camba*

08 de maio de 2020 | 07h00

Tomás Camba. FOTO: DIVULGAÇÃO

Cultuar é estar em comunhão com Deus. É senso comum perceber que, no imaginário evangélico, a comunhão com Deus se resume ao fato de estarmos presentes num ambiente institucional. Porém, a ideia de uma adoração institucionalizada não passa de uma visão distorcida do verdadeiro conceito de adoração. É, portanto, uma falsa percepção da realidade. Essa ilusão tem sido evidenciada com o surgimento da covid-19 e, com ele, as medidas de isolamento social.

É certo que vivemos uma nova realidade, estamos diante de uma nova era e não podemos negar que o mundo mudou como afirmou profeticamente Galadriel na abertura do filme O senhor dos Anéis. Uma destas mudanças tão evidente é a de não podermos nos reunir em locais públicos. Essa mudança causou estranhamento em muitos líderes religiosos que ainda vivem com ideais distorcidos a respeito do verdadeiro significado de adoração ao criador. Alguns relutaram com a ideia do cancelamento das celebrações dominicais em nome de uma aparente perseguição religiosa. Atos como esse só escancaram a compreensão equivocada da verdadeira adoração Cristã. Uma imagem que pode nos ajudar na explicação dessa relutância é a do pintor espanhol Francisco Goya: O sono da razão produz monstros. É com pesar que podemos conjecturar que muitos líderes religiosos estão com a razão adormecida e o sono da razão tem produzido igrejas apáticas em relação a reflexão bíblica e no lidar com a realidade a sua volta. Com efeito, o sono da razão tem produzido um falso conceito de culto e adoração.

Para aqueles cuja razão permanece em estado sonolento, realizar cultos online ainda se constitui um sacrilégio. Vale aqui ressaltar que os líderes cristãos que acham absurda a ideia de cultos online, são aqueles que ontem combatiam com veemência o uso da internet com ideias conspiratórias. Não, a internet não milita contra o corpo de Cristo, e Sim, igreja são pessoas se reunindo em qualquer espaço que não seja necessariamente um templo.

Nos evangelhos, Cristo esclarece o verdadeiro significado de culto e adoração ao elucidar seus ouvintes com as seguintes palavras: “Mas está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. O Pai procura pessoas que o adorem desse modo. Pois Deus é Espírito, e é necessário que seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.23-24 NVT). Logo, a adoração não pode se resumir ao local físico (monte ou ao templo, em nosso caso templos ou ambiente virtual); ela acontece pela compreensão da presença do Eterno em todos os lugares e em todos os momentos. Nossa adoração não pode ser dependente ou intermediada pela estrutura ou templo. Ela ocorre através da visão que temos do Cristo glorificado, que reina soberanamente sobre tudo — não apenas sobre o templo.

Nossa adoração no templo é importante, sim, pois manifesta a comunhão que existe entre irmãos, como símbolo da comunhão entre nós e Deus. No entanto, não podemos deixar de perceber que muito de nossos cultos se tornaram vazios, talvez a pandemia tenha trazido à tona essa incompreensão sobre o verdadeiro significado de ser igreja. Ora, os cultos virtuais são de suma importância em tempos de isolamento social, pois como Cristãos somos guardiões da criação. Não obstante, Cristo nos ensina que devemos amar a Deus e ao próximo. Amar é cuidar, quando aderimos ao isolamento social em nome do combate a pandemia da covid-19 que assola o mundo, estamos cuidando do próximo e manifestando o amor de Deus para aqueles que não o conhecem. A proposta do evangelho é trazer vida e não contribuir para que muitas vidas sejam ceifadas em nome do fanatismo.

Precisamos entender de uma vez por todas que fé não significa fechar os olhos obstinadamente aos fatos científicos. Quem assim procede precisa ser acordado do sono da razão em que se encontra. Fique em casa!

*Tomás Camba é colunista em um dos principais jornais da Angola, pastor, professor de Teologia e Filosofia, ensaísta, escritor e autor do livro Terceirização da Fé (Editora Mundo Cristão)

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