A importância do Mercosul e as consequências da desindustrialização brasileira

A importância do Mercosul e as consequências da desindustrialização brasileira

Tiago Reis*

14 Novembro 2018 | 10h00

No último mês, com as declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre as “abusivas” relações comerciais com o Brasil, veio em destaque novamente o papel que o comércio regional tem para a balança comercial brasileira.

Tomando-se o retrato do Produto Interno Brasileiro, percebemos que a Indústria é primordial na composição desse importante indicador macroeconômico, mesmo que em forte tendência decrescente.

A importância do Mercosul se dá justamente no contexto do avanço da China e do Sudeste Asiático no cenário industrial mundial. Com uma competitividade altíssima devido a vários fatores, dentre eles o baixo custo de mão de obra, essa região está concentrando de forma rápida o parque industrial do mundo.

Nesse cenário, o estabelecimento de taxas comuns a importações, por conta da União Aduaneira do Mercosul, é muito importante para a indústria brasileira. Mesmo que o parque industrial brasileiro seja incipiente, é competitivo entre seus pares sul-americanos. Isso permite que o Brasil tenha saldo positivo na exportação de produtos industrializados com os países do bloco, cenário cada vez mais raro para o Brasil no contexto mundial.

Muitos discutem o mérito do bloco econômico do Mercosul, já que o fato do Brasil estar incluso nele implica na exclusão de outras possibilidades de estabelecimento de relações comerciais. Por exemplo, se o Brasil não estivesse em União Aduaneira, poderia discutir a diminuição de tarifas de importação de forma mais consistente, com o fim de baratear produtos para o consumo e buscar taxas menores para a exportação de produtos agrícolas, na qual o Brasil possui vantagens competitivas. Será que vale a pena o Brasil proteger sua indústria em detrimento de outros setores da economia?

Atualmente essa discussão está em voga nos EUA, devido a polêmica política econômica adotada pelo presidente Trump. Deve-se ponderar os argumentos a favor e contra o aumento de taxas de importação. Historicamente, desde o princípio do capitalismo europeu, países praticaram o chamado protecionismo econômico, com o objetivo de blindar sua indústria e/ou seu setor agropecuário de concorrência externa. Diversas teorias econômicas mostram que a especialização na produção ou fornecimento de determinado produto ou serviço unida ao comércio internacional é muito benéfica para o crescimento econômico e aumento da riqueza do país.

Outros, afirmam que a diminuição do aproveitamento de terras ou a desindustrialização de um país são sérias ameaças à soberania nacional. De fato, em um cenário adverso que é a guerra, como um país sobreviveria sem indústria para a produção de armas e comida para o abastecimento interno?

Na prática, devemos avaliar a possibilidade real de guerra em um mundo globalizado e altamente interdependente. Dada essa avaliação concreta, podemos ponderar o ganho de renda causado pelo comércio internacional com acrescimento do risco à soberania nacional causada pelo enfraquecimento da indústria. Não existe uma resposta certeira para esse dilema, mas o questionamento deve ser feito e amplamente debatido pela sociedade e política no Brasil.

*Tiago Reis, CEO e fundador da casa de análise financeira Suno Research

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