A importância de proteção aos migrantes do Brasil

A importância de proteção aos migrantes do Brasil

Andréa Freire*

22 de fevereiro de 2022 | 17h10

FOTO: RICARDO MORAES/REUTERS

Um milhão e trezentos mil. É essa a estimativa mais recente do Ministério da Justiça e Segurança Pública para a quantidade de migrantes que vivem no Brasil. O número impressiona, sobretudo se considerarmos que a maior parte dele é composta por refugiados de países como a Venezuela, que nos últimos anos, tem sido o nascedouro de um fluxo migratório que expatria milhares de seus cidadãos para o Brasil, com o sonho de encontrar aqui oportunidades que já não existem lá.

Esse movimento, como não poderia deixar de ser, criou uma grande pressão sobre o controle de fronteiras do Brasil, especialmente em Pacaraima, pequeno município roraimense que foi pego de surpresa com a chegada de venezuelanos, que se intensificou subitamente. Não à toa, como divulgou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) este ano, Roraima foi o estado que registrou – pelo quarto ano consecutivo – o maior aumento percentual de habitantes: um crescimento de 3,41% em comparação a 2020, frente a uma média nacional de apenas 0,7%. Além de Pacaraima, cidades como Bonfim e a própria capital Boa Vista viram suas dinâmicas socioeconômicas se modificarem diante de tal quadro. Esse fenômeno, claro, criou um desafio para o Brasil: como inserir tanta gente assim na sociedade?

Para acharmos uma resposta para este desafio, é preciso entender primeiro que não se trata de um fenômeno exclusivamente brasileiro. Dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) indicam que 82,4 milhões de pessoas em todo o mundo foram deslocadas forçosamente de suas terras natais, como resultados de perseguições, conflitos, violência ou abusos de direitos humanos.

O fenômeno também não é novo. O próprio Brasil recebeu, ao longo de sua história, fluxos migratórios que remodelaram nossa cultura e economia, como a vinda dos japoneses, dos italianos, dos libaneses e dos escravos africanos, apenas para citar alguns dos vários povos que compõem o mosaico da nossa identidade nacional.

Um dos mais celebrados escritores de todos os tempos, William Shakespeare já havia abordado, 400 anos atrás, em várias de suas obras, a temática da imigração. Desde peças como o Mercador de Veneza, que retrata os conflitos entre o banqueiro Shylok e o comerciante Antônio; passando pela Comédia dos Erros, em que vemos Egeon ser preso e condenado à morte por ter pisado em terra estrangeira; até chegar em Sir Thomas More, manuscrito que não é de autoria de O Bardo, mas que recebeu contribuições suas e, costumeiramente, é associado ao autor inglês, as dificuldades típicas do migrante é apresentada em linhas que vão do drama à comédia.

Andréa Freire. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nos tempos atuais, em terras brasilis, porém, não existem contornos cômicos na vida de quem é migrante. Por um lado, temos aqui uma cultura acolhedora que facilita o processo de acolhimento de estrangeiros ao nosso tecido social. No entanto, ainda precisamos avançar na criação de um sistema integrado que possibilite introduzir essas pessoas no mercado de trabalho, uma vez que somente enquanto agentes econômicos eles poderão, de fato, viver dignamente no País. A boa notícia é que já existem algumas iniciativas.

A Operação Acolhida, do governo federal, tem sido exemplar em auxiliar venezuelanos que chegam ao Brasil por Pacaraima, cuidando de toda a parte de documentação, alojamento e assistência humanitária. Existem também organizações da sociedade civil, como a própria Visão Mundial, assim como empresas em todo o País, que vêm alocando a mão de obra venezuelana para que eles possam, por meio do trabalho, ter acesso a produtos e serviços básicos.

Esse caminho é indispensável para que não apenas os venezuelanos, mas migrantes de outras nações que chegam ao Brasil não sejam presas fáceis para o tráfico de pessoas e a marginalidade, e não encontrem, aqui, o mesmo destino com o qual se depararam em seus países de origem. Acolher essas pessoas está na raiz da política pública e na política externa do Brasil e não podemos, em um momento como o atual de pandemia, arrefecermos em nossos esforços.

*Andréa Freire, gerente de programas da Visão Mundial, que atua na resposta à crise migratória da Venezuela

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.