A importância de alfabetizarmos emocionalmente nossas crianças

A importância de alfabetizarmos emocionalmente nossas crianças

Carolina Paschoal*

04 de dezembro de 2020 | 06h49

Carolina Paschoal. Foto: Divulgação

Começo a escrever este texto ao fundo de uma sala híbrida na aula de História, do sétimo ano do Fundamental, depois de oito meses em que alunos e professores mantiveram suas atividades apenas no Ensino Não Presencial (on-line). É visível a ânsia de todos por perguntar, levantar a mão fisicamente e se fazer presente. Percebo que eles estão felizes porque somos presença, e sabemos que o mais tecnológico dos softwares nunca estará à frente das relações reais.

Gostaria, em primeiro lugar, de deixar claro que ao longo dessa escrita não tenho a pretensão de romantizar o impossível: a quarentena e o COVID-19. Já estamos fartos a essa altura. Fartos de perder a liberdade e mais de 170 mil vidas somente em nosso país – e é sabido que enquanto você faz esta leitura inevitavelmente mais pessoas não terão resistido ao vírus. Fartos por perder nossos empregos, relações, dinheiro e até a dignidade.

São incontáveis os memes nas redes sociais que anseiam o encerramento do ano de 2020, ou ainda não é difícil que ao conversar com pessoas elas nos digam: “Esse foi um ano perdido”. Foi de fato um ano de perdas e debilitamos nosso sistema imunológico e mental. Mas o que ganhamos e aprendemos com 2020? Quais foram as vitórias e as histórias que nos servirão de lição? Aliás, tomamos uma lição? Ou a chegada da esperada vacina nos devolverá nosso jeito de ser? Sim, porque repetimos muito essa frase: não vejo a hora de tudo voltar como era antes. Será que queremos ser estas mesmas pessoas?

Proponho mais reflexões: o quanto precisamos desenvolver a inteligência das emoções, medos, perdas e recomeços para fazer do período de isolamento um aprendizado? Tornamos nossos sentimentos quase tão irreais quanto os computadores à nossa frente? E neste sentido gostaria de falar sobre as crianças. Temos que ter a ciência de que elas viveram em casa tudo exatamente igual ao seu pai, sua mãe, seu avô ou em alguns casos sozinhas, porque como você sabe, a escola fechou.

E por falar nesta instituição – que muitas vezes é o único local em que se mantém a criança longe da solitária vida virtual – precisamos refletir sobre o impacto que a falta da rotina na escola gerou à saúde física e mental dos alunos, desencadeando em inúmeras doenças como depressão, ansiedade, pânico, entre outras.

Não somos seres virtuais. Somos humanos que pensam, sentem, agem, choram, riem, brigam, fazem as pazes. Madalena Freire cita Paulo Freire em seu livro Educador, Educa a Dor, quando diz “que enquanto humanos ‘somos uma inteireza’, e ao mesmo tempo ‘seres inacabados’. Inteireza, marcada por dimensões que nos constitui numa totalidade; somos constituídos de cognição, razão, inteligência, mas também de afetividade, amorosidade”.  A forma como escolhemos lidar com o que está dentro de nós, reconhecer estes sentimentos e lidar com eles para que possamos viver melhor se chama Inteligência Emocional. Não há fórmula mágica para se tornar um expert em emoções, mas é aí que coloco a escola. Sim, a escola, que necessita rever a sua perspectiva diante da vida emocional das crianças e adolescentes.

Já sei o que você pode pensar: que isso é função da família ou de um terapeuta. Não se mudarmos nosso olhar diante dos fatos. Para a especialista Karen McCown, “o aprendizado não pode ocorrer de forma distante dos sentimentos das crianças. Ser emocionalmente alfabetizado é tão importante na aprendizagem como matemática e a leitura”.

E é neste ponto que falo sobre a importância das rodas de conversa tão frequentes na Educação Infantil, nas quais a (o) professora (o) pergunta à criança participante: “Você quer falar como está se sentindo?”. E assim, o grupo ouvinte pode oferecer possiblidades à solução do problema apontado pelo (a) aluno (a), chamado por Daniel Goleman de soluções criativas para provações que enfrentamos na vida cotidiana.

Diferente da realidade cotidiana da Educação Infantil, quando as crianças ingressam no Ensino Fundamental, geralmente param de frequentar as “rodas de conversa”. Poderíamos trocar os mesmos dez minutos utilizados para fazer a fila no pátio no início da aula por esse momento, cujo objetivo é que todos se olhem e contem como estão se sentindo ou simplesmente emprestem seus ouvidos. Está aí uma forma de se tornar Inteligente Emocionalmente. O mediador da conversa saberá desde o início da aula como está seu (a) aluno (a) e qual a melhor forma de conduzi-lo ao longo do período letivo.

Não quero fazer do professor um terapeuta e sim facilitar o seu trabalho porque a partir do momento em que nos tornamos empáticos à dor ou alegria do outro, passamos a enxergar aquela pessoa como ser único, importante e fundamental.

Ainda podemos considerar fato de que no Fundamental 2 as aulas são separadas por conteúdos, e dez minutos fariam uma diferença e tanto para o planejamento acadêmico. Tudo bem, pode-se adaptar esse processo e por exemplo separar cinquenta minutos por semana (uma hora aula) possibilitando ao grupo um espaço de troca. E para quem está se questionando porque isso ainda não foi feito, respondo que as aulas de inteligência já são uma realidade para o bem estar de centenas de alunos neste ano tão atípico que estamos vivendo. No entanto, ainda temos uma longa jornada de conscientização e investimento na formação do professor e no incentivo dos governantes.

Outro dia estava acompanhando uma aula On-line e ao Vivo de Inteligência Emocional na qual a pergunta era: “Quando você sente medo?”. A turma era de primeiro ano (entre seis e sete anos). A professora começou contando da sua experiência sobre o medo e aí, quase como uma avalanche, todas as crianças queriam falar do que tinham medo, pois perceberam que este é um sentimento válido até mesmo para um adulto. E ainda: falar sobre o meu medo e o do outro me ajuda a perceber que: Em primeiro lugar, ter medo é normal. Em segundo lugar, agora que eu sei do que meu amigo tem medo, posso ser empático com ele. E ainda arrisco um terceiro lugar neste pódio: perceber que temos medos similares, e assim ficará mais fácil de nos conectarmos.

Concluo minha escrita parafraseando Daniel Goleman, que nos ensina que ao buscar em nossas crianças que tipo de sentimento carregam dentro de si, ensinamos a elas que sempre temos opções para reagir a uma emoção, e quanto mais meios temos para lidar com as emoções, mais rica é a nossa vida.

*Carolina Paschoal, pedagoga e diretora da Escola Pedro Apóstolo.

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