A importância das relações econômicas e culturais entre os países da América Latina

A importância das relações econômicas e culturais entre os países da América Latina

Julio Serson, Jorge Damião e Juan Carlos Salazar Álvarez*

16 de março de 2022 | 08h00

Julio Serson, Jorge Damião e Juan Carlos Salazar Álvarez. FOTOS: DIVULGAÇÃO

“O sentimento da unidade latino-americana é o limiar de um novo tempo” é o que está escrito no pedestal da escultura “Mão”, de Oscar Niemeyer, arte emblemática que compõe o acervo do Memorial da América Latina. Apesar da obra ter sido instalada em 1989, essa frase ainda cabe para retratar o momento atual que vivemos.

O Memorial, desde seu surgimento, tem se dedicado a cumprir o propósito de ser um espaço de acolhimento e unidade da arte latino-americana. A compreensão da cultura em suas diversas manifestações é parte fundamental do desenvolvimento humano.

Para além do seu valor simbólico, intrínseco à cultura, a riqueza cultural latino-americana é também responsável pela geração de trabalho e renda em diversos setores da economia. Para se ter uma ideia, no Brasil, em 2021, a economia criativa gerou quase cinco milhões de empregos, segundo o painel de dados dos setores cultural e criativo do Observatório do Itaú Cultural.

Na área da cultura, o Consulado Geral do Chile em São Paulo colaborou com a projeção de artistas chilenos em São Paulo, participando ativamente da Bienal, dos festivais de cinema organizados pelo Governo do Estado e na promoção de visitas de importantes músicos, tal como o concerto que Roberto Bravo realizou no Memorial.

As trocas entre Brasil e os países da América Latina no campo cultural são tão importantes quanto as suas balanças comerciais. Artistas e intelectuais latino-americanos com trajetórias e referências similares estabeleceram laços de amizade e colaboração ao longo dos anos. Um exemplo disso foi a interação entre a brasileira Cecília Meireles, a chilena Gabriela Mistral e a argentina Victoria Ocampo durante as primeiras décadas do século 20, poetisas que faziam reflexões e críticas sobre temas importantes como a pobreza, o feminismo e a identidade latinoamericana.

Em décadas passadas, o desenvolvimento econômico da América Latina foi caracterizado por economistas e sociólogos como um subdesenvolvimento estrutural. Os avanços das relações entre os países do continente e a integração ao mercado mundial se tornaram então elementos fundamentais para quebrar essas limitações estruturais e promover o crescimento econômico dos países.

Temos uma identidade latino-americana comum e compartilhamos de valores fundamentais, como a defesa da democracia, o compromisso irrenunciável com os direitos humanos e a firme vontade de combater a pobreza e a desigualdade social.

Os avanços se dão também a nível subnacional. O Estado de São Paulo, seguindo uma política internacional pioneira no Brasil e com base nesses valores comuns, tem assinado uma série de protocolos bilaterais com outros países. Em setembro de 2019, o Governador do Estado, João Doria, e o Embaixador do Chile no Brasil, Fernando Schmidt, assinaram um Termo Aditivo a um Protocolo de Intenções entre o Estado de São Paulo e o Chile, com foco em comércio, investimentos e inovação, que resultou, entre outros avanços, num intercâmbio de programas de internacionalização de startups.

O acordo de livre comércio assinado entre Brasil e Chile no final do ano passado, e que entrou em vigor no dia 25 de janeiro de 2022, também terá importante impacto no fluxo comercial entre os dois países que já tem sólida relação no setor de agronegócio e mineração, do qual a participação do Estado de São Paulo corresponde a praticamente um terço do total. A projeção é ampliar a promoção de exportação de bens, produtos e serviços, comércio e meio ambiente, inovação, entre outros.

Vale lembrar que o Brasil é o principal parceiro do Chile na região, com um intercâmbio comercial que chegou a US$ 7,09 bilhões em 2020, de acordo com o Banco Central do Chile, e é o principal país receptor de investimento chileno, com US$ 6 bilhões recebidos em 2021, de acordo com o Ministério da Economia Brasil.

A América Latina é uma região considerada em risco de alerta para deslocamentos forçados em virtude de eventos climáticos e ambientais, e existe uma previsão de que até 2050, 17 milhões de pessoas sejam forçadas a deixar o lugar em que vivem no nosso continente.

O limiar desse novo tempo para a América Latina urge aprofundar a luta pela diminuição das desigualdades e ampliar os esforços para que a região seja cada vez mais influente mundialmente, dando destaque à defesa do meio ambiente, à sustentabilidade e tendo a cultura como pilar essencial para um futuro próspero.

Os anos vindouros oferecerão novos espaços para o fortalecimento da cooperação e das alianças estratégicas entre os países da América Latina, e a revitalização da promoção cultural será fundamental para uma maior integração sub-regional entre os povos latinoamericanos.

*Julio Serson, secretário de Relações Internacionais

*Jorge Damião, presidente do Memorial da América Latina

*Juan Carlos Salazar Álvarez, cônsul-geral do Chile em São Paulo

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