A importância das políticas de saúde e do fortalecimento do SUS: certezas que a pandemia nos trouxe

A importância das políticas de saúde e do fortalecimento do SUS: certezas que a pandemia nos trouxe

Luiz Augusto Maltoni*

17 de janeiro de 2021 | 05h00

Luiz Augusto Maltoni. FOTO: DIVULGAÇÃO

É redundante dizer, mas foi um ano atípico. Sabe-se que a pandemia da covid-19 tornou necessárias medidas de contingenciamento para atendimentos e diagnósticos de pacientes que sofriam das mais diferentes enfermidades em todo o mundo. O câncer está entre elas.

A questão agora é agir sobre aquilo que se projeta para o futuro. Relatórios com análises sobre o cenário epidemiológico global, feitos por entidades internacionais que estudam e trabalham para o controle do câncer, a exemplo do Instituto de Câncer dos Estados Unidos e da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), apontam o avanço nos números e danos gerados pelo câncer em escala global.

Está dada a previsão para os próximos anos. E tendo ainda como parâmetros as questões trazidas pela emergência sanitária de 2020, que mostrou ao mesmo tempo a vulnerabilidade de todos e a força dos profissionais da saúde, é inadiável pensar e propor a reorganização de ações e programas para o controle do câncer.

Nosso SUS foi, como sempre, uma grande referência. Todas as lacunas já existentes no combate à doença foram agravadas pelos esforços voltados ao enfrentamento da covid-19. Tantos limites impostos pelas restrições e a volta do crescimento do vírus preocupam o mundo. Isto é visto em números de casos e mortes, a exemplo do ocorrido no segundo trimestre de 2020. A crise, os adiamentos e o acúmulo de incertezas, tornam mais urgentes ações efetivas para o controle do câncer. O que ajudaria a mitigar impactos negativos na saúde pública.

O ano de 2021 será crucial. No Brasil, teremos mudanças nas gestões das prefeituras em suas secretarias de Saúde. Todos terão diante de si um cenário novo e delicado. Das secretarias locais partem a investigação e o diagnóstico do câncer no Sistema Único de Saúde (SUS). É da atenção básica que também podem sair grandes soluções para longo prazo, através de campanhas de orientação com a saúde da família, do acompanhamento de fatores de risco pelas equipes de postos e programas de atenção à população.

Esse é um dos muitos papéis do SUS, que mais do que sempre, deixa clara sua importância e a necessidade de seu fortalecimento, uma vez que é a coluna de sustentação e a referência no controle da pandemia e no combate ao vírus. Se concretizados e fortalecidos os serviços de promoção da saúde, o avanço do câncer no Brasil poderá ser contido.

Hoje, a doença é a segunda causa de mortes por enfermidades em todo o mundo, estima-se que até 2030, o câncer possa ser a primeira. Cerca de 9,6 milhões de vidas foram perdidas no planeta em 2018 em razão da doença. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima, por ano, cerca de 625 mil novos casos da doença. Tanto em 2021 quanto em 2022.

O câncer de pulmão, descrito como doença tabaco relacionada, é um dos que estão no topo do ranking de incidência no país. Doenças relacionadas a fatores como tabagismo e obesidade são consideradas evitáveis e é nisso que se deve focar. Existem pelo menos 13 tipos de câncer ligados a hábitos de vida como a alimentação e a atividade física.

Se daqui para 2030 os fatores de risco forem combatidos, será possível diminuir os impactos nos sistemas de saúde, salvando muitas vidas. A população mais jovem, muito ligada em tecnologia, games, redes sociais, assim como as gerações futuras, podem ser impactadas por campanhas educativas eficientes, atrativas, virtuais, bem elaboradas, mostrando que atividade física, alimentação saudável, não fumar e evitar álcool impedem o câncer e a morte precoce. É hora de pensar nelas!

Já adultos e idosos fazem parte do grupo da população que deverá ser alcançado pela estruturação de redes de assistência, da atenção básica, dos programas de saúde da família e até mesmo por projetos de prevenção da saúde suplementar. Esta, também impactada pela epidemia de câncer, deve colaborar com ações como as campanhas e programas de promoção da saúde aos seus associados e beneficiando a sociedade.

Quando falamos em combate ao câncer, o futuro é agora. Para deter a pandemia da doença, e todas as mazelas que ela traz, é preciso pensar e agir já. O trabalho em cada município, bairro, comunidade, através de ações diretas, campanhas de esclarecimento sobre fatores de risco, a oferta de assistência multidisciplinar para a população, o investimento na promoção de saúde, diminuição de desigualdade social, com acesso a renda, como alertam importantes documentos de reconhecidas entidades internacionais que estudam e combatem o câncer, podem ajudar a fazer do zelo com a saúde um hábito.

A pandemia chamou atenção para a necessidade de assumirmos um papel de cuidado conosco. Todos podem fazer isso juntos!

*Luiz Augusto Maltoni, médico e diretor executivo da Fundação do Câncer

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