A importância da Educação para o desenvolvimento social

A importância da Educação para o desenvolvimento social

Sandra Regina Mota Ortiz*

27 de abril de 2021 | 04h00

Sandra Regina Mota Ortiz. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Educar vem do latim educare, que significa promover a educação; transmitir conhecimentos; ensejar condições para o educando melhorar seu comportamento, alterar hábitos e atitudes, a partir dos conhecimentos e aptidões adquiridos que orientam o desenvolvimento progressivo e sistemático de todas as forças do educando.

Segundo Paulo Freire, educar é construir, é criar no sujeito a consciência da liberdade e a possibilidade de romper com o determinismo, assim, trazendo na educação o reconhecimento de um indivíduo que arquiteta e interfere na história e na realidade de hoje e do futuro.

São muitas as formas de conhecimento, pois são muitas as formas de ver o mundo. O olhar é individual. Ao mesmo tempo, olhando realidades distintas podemos encontrar semelhanças. Historicamente, sabemos que o opressor não quer a disseminação do conhecimento, pois promove um processo transformador no indivíduo e na sociedade através da reflexão, crítica e questionamentos. O conhecimento é pressuposto para a emancipação, e os cidadãos, dotados de conhecimentos, serão capazes de afetar decisões políticas e a sociedade na qual estão inseridos.

É necessário instrumentalizar o indivíduo com conhecimento, com Ciência. Isso só se concretiza efetivamente quando este conhecimento se integra ao território, ao contexto, às histórias de vida do aprendiz. É preciso olhar a integralidade e dar significado ao conhecimento. Desta forma, podemos maximizar o letramento científico e minimizar o negacionismo científico.

O “método” negacionista geralmente envolve um escrutínio exagerado sobre a versão oficial de um evento ou sobre um consenso bem estabelecido, associado a uma supervalorização de pequenos detalhes e invenção de fatos e dados. Por outro lado, a mesma rigidez de escrutínio e valorização de pequenos detalhes não se aplica às explicações alternativas propostas. Embora seja inegável o fato de que a falta de letramento científico e acesso à informação contribuam para uma postura negacionista, isso não explica completamente o fenômeno.

Uma explicação para esse fenômeno é a de que o ser humano é um “deliberador coletivo” por natureza, tirando melhores conclusões e obtendo melhores resultados na resolução de problemas ao fazer isso em grupo. Apesar disso, a epistêmica do próprio indivíduo sempre terá um maior valor para o mesmo, assim como também será dada mais deferência àquelas deliberações mais próximas às do próprio indivíduo. Quando um grupo não possui uma diversidade de ideias, existe o risco de que o mesmo se polarize levando os indivíduos a uma “deferência assimétrica”, onde a visão de alguns passa a ser automaticamente aceita e a de outros automaticamente rejeitada, reduzindo as chances do grupo como um todo alcançar uma verdade.

Não se trata somente sobre “Ao que o indivíduo dá crédito”, mas também de “O porquê o indivíduo dá esse crédito”; sendo essencial que além de letramento e capacidade de racionalização, exista também um número suficiente de pessoas com capacidade deliberativa em todas as estruturas e esferas sociais, para que distorções cognitivas não se concretizem. A ignorância se espalha quando muitas pessoas não entendem um conceito ou fato científico, pela disseminação de informações controvertidas, culminando em uma sociedade analfabeta e suscetível às táticas usadas por determinados grupos, que objetivam confundir e achacar a verdade em detrimento de seus interesses.

A ignorância é considerada o mal do século por incutir no homem um perfil de servilidade. Servil é aquele que desconhece e que não quer conhecer, que estabelece falsas ideias sobre o mundo que o cerca, e que alcança o conhecimento científico provado e comprovado, que gera estagnação e retrocesso.

De qualquer modo, há uma necessidade latente (pela própria sobrevivência humana) de defender a Educação e a Ciência nos dias atuais, quando vemos pais que se negam a vacinar seus filhos, criacionistas religiosos que tentam interferir nos currículos de disciplinas científicas e negacionistas do aquecimento global, todos propagando desinformação, pseudociência e anticiência a todo momento.

No artigo A Test of Three Theories of Anti-Science Attitudes, o sociólogo Gordon Gauchat explora três hipóteses distintas para o surgimento de atitudes anticientíficas em uma sociedade. A primeira hipótese, parte da carência ou mesmo ausência de letramento científico; a segunda busca a origem do problema no fundamentalismo religioso; a terceira hipótese consistiria, por sua vez, em um distanciamento cultural das atividades cientificas.

Em termos de correlação, não seria difícil encontrar na sociedade brasileira os três elementos. Sob um primeiro olhar, a confluência destes três fatores poderia sugerir soluções de inspiração iluminista: o contato com o conhecimento científico deve conduzir à construção de uma atitude cientifica; a atitude cientifica como libertação do dogmatismo; o dogmatismo como contraposição à ciência. Esta é, sem risco, uma das soluções mais familiares ao senso comum, em que pese toda a vagueza implícita quando se fala da educação como raiz e solução dos nossos problemas.

Para muitos educadores, um dos principais objetivos do ensino obrigatório e da formação intelectual das crianças e dos jovens é conseguir despertar um pensamento crítico na população, para que possam ser enfrentados os problemas que surgem nas sociedades, assim tornando-as mais justas e igualitárias. Podemos pensar que a educação através da autonomia dos indivíduos em aprender sobre sua condição de saúde e de sua comunidade, por exemplo, pode ser um dos caminhos para minimizar os impactos do negacionismo científico e combater com informação a desinformação/fake news.

Paulo Freire em uma de suas obras fala do trabalhador social que na sua perspectiva: não pode ser um homem neutro frente ao mundo, um homem neutro frente à desumanização ou humanização, frente à permanência do que já não representa os caminhos do humano ou à mudança destes caminhos. O trabalhador social, como homem, tem que fazer sua opção, ou adere à mudança que ocorre no sentido da verdadeira humanização do homem, de seu ser mais, ou fica a favor da permanência. O trabalhador social tem que estar constantemente em busca de sua humanização, caso isso não ocorra, sua única opção será o de mantenedor do status quo.

É evidente a necessidade de uma sociedade mais esclarecida, valorizando o conhecimento produzido nas universidades visto que uma sociedade cientificamente analfabeta, provavelmente vai ser mais suscetível às táticas usadas por aqueles que desejam confundir e obscurecer a verdade. E esta situação só será transformada quando garantirmos, a todos, o acesso ao conhecimento de forma significativa. Só o conhecimento é capaz de empoderar o indivíduo e torná-lo capaz de modificar este cenário.

*Sandra Regina Mota Ortiz, diretora de Pesquisa e Pós-Graduação Stricto Sensu da Universidade São Judas

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