A ilusão do final da transformação digital nas empresas

A ilusão do final da transformação digital nas empresas

Henrique Puccini Hassi*

21 de abril de 2021 | 03h30

Henrique Puccini Hassi. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

No final da década de 80 e início dos anos 90, assistimos, em VHS ou no cinema, a trilogia “De Volta para o Futuro”. Marty McFly e Doutor Emmett Brown, a bordo de um Delorean, viajaram para diversos momentos da história de Hill Valley. Vamos tirar a nostalgia da “Sessão da Tarde” e concentrar em uma das mensagens possíveis: Marty consegue viajar no tempo e enfrenta uma série de desafios e paradoxos que surgem das suas escolhas e ações. Justamente aqui está meu ponto de abordagem: o que estamos fazendo agora para definir o futuro das nossas organizações?

Nos filmes, o que os personagens fazem no presente afeta o futuro e cria linhas de tempo alternativas para todos. Em uma analogia simples, seria a Transformação Digital capaz de criar um novo paradoxo para as nossas empresas? É a Transformação Digital feita agora que mudará sua rotina no futuro?  Por essas e outras questões é que a Transformação Digital é hoje o grande tópico em discussão nas empresas. O termo, de tanto ser usado e falado, chega a estar gasto e soar clichê. Porque de futebol e Transformação Digital todo mundo entende um pouco, não é?

O fenômeno da Transformação Digital nas empresas deixou efetivamente de ser mais uma apresentação de Powerpoint em uma sessão no conselho ou comitê executivo. A chegada da COVID-19 acelerou os investimentos no tema e muito do que falávamos no passado – como omnichannel e ambientes phygital – saiu do papel, na força do medo ou da necessidade. A Transformação Digital atinge de forma disruptiva e acelerada todos os setores da economia, em maior ou menor grau. E, com a crescente demanda, começam a surgir as perguntas normais de ciclos. Quando chegará o final da nossa Transformação Digital?

Um ponto de destaque: a Transformação Digital hoje está sendo liderada por grupos econômicos mais tradicionais que buscam atualizar e melhorar os próprios processos, além de revitalizar ou criar e evoluir seus modelos de negócios atuais, migrando para o ambiente digital. E essa não é a pauta primária das startups, que já nascem como nativas digitais. O termo, inclusive, não é novo e faz alusão ao escritor americano e pesquisador de educação Marc Prensky que, em 2001, disseminou o apelido de “Nativos Digitais” e “Imigrantes Digitais” no artigo “Nativos Digitais, Imigrantes Digitais”. Na publicação, Prensky comenta sobre a “chegada e rápida disseminação da tecnologia digital na última década do século 20”.

E, justamente, esses nativos digitais estão atuando nos últimos anos na criação do ecossistema digital que estamos vivendo agora. E as empresas chamadas de nativas digitais estão amadurecendo seus processos e modelos comerciais, atuando em muitas das lacunas justamente deixadas pelos players tradicionais.

Por aqui já temos uma pista explícita da resposta sobre o final da Transformação Digital: transformar é uma atividade constante e cíclica. Sem final. Quem começou antes, hoje colhe resultados, mas não pode ficar na zona de conforto. Porque não há espaço para isso. A fusão de definições sobre Transformação Digital da Gartner e Salesforce, por exemplo, podem ajudar a criarmos um conceito próprio: a Transformação Digital explora tecnologias e recursos para criar um novo modelo de negócios digital e robusto, que atenda cultura, clientes e um mercado em constante mudança.

Em um cenário de pandemia e pós-COVID-19 (em breve), já vivemos em um mundo com uma jornada de consumo não linear e imprevisível. Transformação Digital não é somente sobre investir intensamente em novas tecnologias para a sua rotina. Se você está focado em retorno de investimento de Transformação Digital somente em produtividade ou processos mais ágeis, acenda o alerta. A verdadeira mudança está nos modelos de negócio.

É impossível completar ou declarar que a Transformação Digital foi feita integralmente em qualquer empresa. Toda Transformação Digital vai começar com o cliente e continuar com ele. A transformação é contínua e, na linha do que falamos, sua empresa não pode parar mais de evoluir, pois o cliente não vai parar de mudar. A tecnologia avança e o comportamento também muda com isso, originando outro cenário. As empresas serão sempre levadas ao próximo “novo normal”.

Essa era pós-digital tem como pilar a inovação contínua em todas as áreas da empresa, para viabilizar que a adaptação e evolução sejam constantes e, principalmente, que a Transformação Digital seja uma competência de todos e não um projeto do time de tecnologia ou gestão de pessoas. É essencial falarmos que, para começar a transformar, a empresa precisa de uma estratégia digital clara e fluida, que envolva da alta gestão ao time operacional. Uma transformação de verdade, digital ou não, é intensa e deve refletir avanços sociais e econômicos, num processo que afeta as relações entre todos, pessoas e empresas.

O que vem depois da Transformação Digital? Se tudo der certo, muito mais trabalho. E, se der errado? Você saberá em primeira mão, por meio da queda da sua receita, dos novos concorrentes que surgirem, tomando seu “espaço” e atraindo para si os seus “fiéis” clientes. (Aqui, Nokia e Yahoo, entre outras, mandam saudações para quem precisa de um reforço de memória.)

Pautas como inteligência artificial, inteligência aumentada, computação quântica ou realidade mista precisam ser dominadas por todos. Não é ser disruptivo, é uma questão de sobrevivência, uma vez que somente o incremental não é mais suficiente. Um bom caminho para isso é construir redes e ecossistemas, que têm um efeito poderoso de autorregeneração.

Os limites estão ficando invisíveis e porosos e a inovação aberta ajuda a criar novas realidades, absorvendo e ajustando em tempo real os modelos de negócio. Ao inovar, a sua empresa ganha em vantagem competitiva e cria uma brecha no tempo para avançar. Se falhar nessa jornada de experimentos, que o aprendizado seja compartilhado e a correção seja rápida, criando a capacidade de reinventar-se. A capacidade de transformação deve deixar de ser percebida como habilidade exclusiva de criativos e inovadores sonhando em uma sala e passar a ser uma competência dos times que vivem o propósito da empresa.

E aqui chegamos no cenário do filme citado no início do artigo: a Transformação Digital é o habilitador da mentalidade de inovação que permite a criação de novas realidades.

O seu desafio será criar valor contínuo, com novas experiências exponenciais, para toda a cadeia de stakeholders. Devemos aprender a transformar para nos adaptarmos enquanto a inovação cria um novo futuro, de forma simultânea. E, na linha do filme De Volta para o Futuro, esse novo futuro passa a ser um novo caminho, com uma nova realidade. A inovação é a forma de criar multiversos do seu mundo e testar o que, efetivamente, faz sentido para o seu negócio. Afinal, agora, qual será a rota do seu Delorean?

*Henrique Puccini Hassi, gerente de Inteligência Digital, Parcerias e Inovação da Ânima Educação

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