A ilusão do Brics

A ilusão do Brics

Heni Ozi Cukier*

16 de novembro de 2019 | 08h00

Heni Ozi Cukier. Foto: Divulgação

Após 10 anos de existência, o Brics ainda não sabe quem é, o que quer e nem para onde vai. A causa dessas dúvidas existenciais é fruto da sua origem. A ideia inicial foi concebida em 2001 pelo analista financeiro Jim O’Neill, que formulou o termo para identificar oportunidades de investimento em um bloco de países agrupados artificialmente. Nada mais desestruturado e simplista se tratando de relações internacionais.

Foi nesse contexto, e estimulados por um acrônimo, que quatro nações continentais decidiram iniciar uma das aproximações mais incoerentes das últimas décadas. Isso explica, em parte, a dúvida de todos que se perguntam o que é o Brics. Estamos falando de uma organização econômica nos moldes do Grupo dos Sete (G-7) ou uma união econômica e política similar a União Europeia?

É possível que estejamos lidando com a formação de uma organização política internacional de natureza regional, como a OEA, ou universal como a ONU? Será que estamos falando de uma aliança militar parecida com a Otan? Pode ser comparado a um fórum internacional permanente, como o Fórum Econômico Mundial?

As respostas a todas essas perguntas são bem objetivas. O Brics não é, e não está caminhando, em nenhuma dessas direções. De todos os exemplos citados, a analogia mais plausível é com o G-7. Poderíamos, então, mudar o acrônimo Brics para Grupo dos Cinco (G-5)? Dificilmente, pois o contraste é bem acentuado. O G-7 não fundou e não quer operar um banco de desenvolvimento internacional, como o Brics fez em 2015.

Os desenvolvidos têm muito em comum entre si, a começar por compartilharem dos mesmos valores e terem alcançado seu sucesso acreditando em princípios invioláveis, como democracia e livre mercado. Sem falar que a integração, a interdependência econômica, e o comércio intrabloco dos sete são incomparavelmente superiores aos níveis de integração dos cinco emergentes.

Do ponto de vista da governança global, o Brics também demonstra incoerência ao não conseguir, sequer, sustentar um dos seus objetivos proclamados—construir uma arquitetura alternativa e democrática as instituições lideradas pelo Ocidente. Primeiramente, escutar o Brics falar em estruturas democráticas é uma grande contradição.

De acordo com o relatório “Liberdade no Mundo” publicado pela Freedom House—uma organização não governamental dedicada ao estudo da democracia—nos últimos seis anos, todos os países do bloco tiveram queda nos índices que medem liberdades civis e direitos políticos. Aliás, os dois países mais influentes do grupo, Rússia e China, estão entre os maiores responsáveis pela expansão da influência antidemocrática no mundo.

Inclusive, nas últimas cúpulas do grupo, os países membros têm reivindicado maior representação nas instituições financeiras internacionais e na ONU. Mais uma vez o gargalo entre os pronunciamentos e a realidade é gritante.

Se as intenções fossem genuínas, Rússia e China, os dois membros com maior projeção de poder global, e com assentos permanentes do Conselho de Segurança, deveriam ser os primeiros defensores e apoiadores da inclusão de seus parceiros Brasil e Índia. Contudo, a realidade é oposta—justamente Rússia e China são os mais engajados em bloquear qualquer reforma do Conselho.

As contradições e incoerências são inúmeras, e demonstram ser um produto direto da fórmula artificial que aglutinou um grupo aleatório de países, sediados em teatros geopolíticos discrepantes, com valores culturais desconectados e capacidade de poder tão desiguais.

Para o Brasil, é muito arriscado estar amarrado politicamente a países com objetivos e valores tão diferentes, pois isso pode prejudicar os nossos interesses e as relações comerciais individuais com os membros do bloco, além de comprometer o alinhamento político com os países desenvolvidos.

Os laços econômicos do Brasil com a China reforçam a necessidade de uma politica pragmática e de boa vizinhança. Mas aglutinar-se em um bloco com parceiros tão diferentes politicamente é uma receita para desentendimento e choques políticos desnecessários.

Imaginem se China decide que o Brics deve se posicionar, politicamente, de uma maneira contrária aos interesses do Brasil. Na América Latina, por exemplo, China e Rússia têm interesses políticos bem distintos da visão e objetivos do Brasil. Consolidar esse relacionamento de forma institucionalizada abre espaço para pressões e pedidos constrangedores do ponto de vista político, justamente por termos menos ferramentas e recursos para impedir que essas divergências politicas acabem se tornando retaliações e atritos  comerciais.

O Brasil deve manter uma relação política independente, saudável e amigável com todos os países do bloco, mas não deve sedimentar essa relação em uma aliança institucionalizada.

Um dos grandes erros da política externa brasileira tem sido estar muito próxima de parceiros que não nos permitem explorar ao máximo nosso potencial, não somente comercial e econômico, mas político e democrático. Alianças Sul-Sul, aproximações com ditaduras, parcerias com o Mercosul e agora o Brics estão dentre as escolhas que fizemos nos últimos anos.

Por que o Brasil não se concentra e prioriza os EUA, Europa e países democráticos da Ásia e Oceania, como Japão e Austrália? Vimos uma primeira movimentação nessa linha com as escolhas do atual governo brasileiro. Seria mais prudente mantermos uma postura de liderança e protagonismo com os países em desenvolvimento, mas ao mesmo tempo, se aproximar, ampliando e fortalecendo os laços com os países desenvolvidos, que além de compartilharem valores comuns, são exemplos concretos de crescimento econômico responsável preservando as instituições democráticas.

Inclusive porque, até o momento, o melhor do Brics foi a marca simbolizada pelo seu acrônimo!

*Heni Ozi Cukier é cientista político, professor da ESPM, deputado estadual por São Paulo e líder da bancada do Novo

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