A ignorância e suas cômodas justificativas

A ignorância e suas cômodas justificativas

Adriano Paciello*

01 de setembro de 2020 | 15h35

Adriano Paciello. FOTO: DIVULGAÇÃO

Quando criança, associava o ignorante a alguém com atitudes agressivas. Aos poucos, a vida foi me mostrando que esse adjetivo tinha uma semântica muito particular e protegida. Quase como um álibi, pautava em suas justificativas alguma consequência absurda ou até inaceitável. Não vivi na pele os castigos com os quais o ser humano adora se travestir e se pautar na ignorância: os preconceitos social, religioso, racial e sexual. No entanto, quando (re)conheci na Umbanda a renovação de minha fé, tudo começou a mudar.

Mas não me colocarei no centro disso tudo, justamente porque não me cabe ser vítima, porém cabe a mim, sim, apontar o que passei a ver com mais atenção: essa tal ignorância em relação ao preconceito religioso. Meu olhar nunca foi mais afiado às perseguições que as religiões de matrizes africanas sofriam. Nunca condenei nem quem sofria, muito menos quem atacava. Talvez pela tão cômoda ignorância ou, simplesmente, porque não fazia parte de meu dia a dia.

Felizmente o mundo está mudando – graças a Deus, a Olorum, a Alá. Não importa. O que vale ressaltar é essa justiça divina que parece estar mais atenta a atrocidades (ou talvez seja a minha atenção nisso tudo). Poderia citar alguns exemplos que passei por ser umbandista, por pessoas próximas ou não. Contudo, as consequências desse preconceito – coberto com o manto da ignorância – ganhou ares ainda mais cruéis semanas atrás.

Fato recente, em que uma pré-adolescente, de 12 anos, descansava em um terreiro de Candomblé em Araçatuba, no interior de São Paulo, depois de ter dedicado cerca de quatro horas de seu dia a fazer orações e danças para seu santo. Estava deitada quando foi surpreendida por policiais armados que invadiram o centro religioso. Eles chegaram ao local depois de receberem uma denúncia anônima de que a menina estava sendo mantida em confinamento, era alvo de maus-tratos e de suposto abuso sexual. Abordada e questionada pelos policiais, a menor respondeu com uma negativa, confirmando que estava no terreiro por vontade própria, passando por um processo religioso. À avó da garota, evangélica e possivelmente uma das acusadoras, foi confiada a guarda provisória. Felizmente, a história terminou dias atrás com um final feliz por intermédio de um juiz da 2ª Vara Criminal e Anexo da Infância e Juventude de Araçatuba. Segundo o magistrado, exames realizados na menina apontaram que ela não tinha qualquer lesão, hematoma nem sinal de agressão ou abuso.

O que temos aqui é um claro exemplo de intolerância religiosa, que vem com cores de ignorância, justamente devido a prática ser de origem africana. O racismo aparece de mãos dadas às denúncias e a tudo que envolve orixás e a semântica que os cerca. Isso fica muito claro quando se faz um paralelo com as práticas de religiões de matrizes africanas e outras que não o são. Vejamos. Todos os dias, as mulheres em Bali, na Indonésia, de maioria hindu, preparam oferendas – as canang sari – com flores, frutas, incensos, moedas e doces.

Elas são oferecidas a diferentes deuses do hinduísmo e colocadas nas calçadas, portas de restaurantes, de hotéis e de templos. Certamente, se praticantes de religiões que não têm matrizes africanas passarem por eles, ficarão encantados. Porém tal encantamento se desfaz se estes mesmos admiradores virem qualquer oferenda feita com doces, flores e frutas nas esquinas brasileiras.

Com certeza, cruzarão a rua, desviarão da calçada e ainda amaldiçoarão o ritual. Ah, o preconceito coberto pela ignorância! Ora, e o que dizer daqueles que admiram os deuses gregos ou os romanos. Poseidon, Afrodite, Atlas, Apolo, Atena, Júpiter, Juno, Marte, Vênus, todos adoráveis… e brancos. Diferentes, bem diferentes, dos odiosos Exu, Oxum, Ogum, Oxóssi, Iansã, Iemanjá, Obaluaê, Omolu… negros e perversos. Ah, o preconceito coberto pela ignorância.

Diria vô Inácio, um preto-velho de voz doce, que não precisamos ter religião para crer em Deus, mas que negar toda religião também é negar Deus. E é com a sabedoria das santas almas que prefiro me pautar, porque nela existe a pureza dos ensinamentos profundos. Que a justiça continue a abrir os olhos a essa inocente ignorância e que a união das boas práticas de fé prevaleça. Quanto a mim, ainda me valho da ingenuidade do erê que me conduz e espero, de uma vez por todas, desassociar o ignorante a alguém de atitudes agressivas. Axé!

*Adriano Paciello é formado em Letras, autor do livro Exu te ama (Aruanda Livros), disponível em audiolivro na plataforma Tocalivros

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