A humanidade da mulher, sem vazios

A humanidade da mulher, sem vazios

Deizimar Mendonça Oliveira*

08 de março de 2021 | 12h45

Deizimar Mendonça Oliveira. FOTO: DIVULGAÇÃO

A palavra humano é carregada de sentidos variados e vazios –  escreve Clarice Lispector – como na adjetivação de uma pessoa como muito humana, o que isso quer dizer? Mas humanizar é potente. Tornar humana uma coisa retira dela a característica de objeto para enchê-la de vida, amor, liberdade.

Em sentido oposto, desumanizar é agir para que uma pessoa seja tratada como objeto. E há muitas formas de desumanizar! O dia 08 de março no Brasil é icônico para expressar a forma como o seu povo vê a mulher. Associações profissionais doam um dia de beleza; supermercados distribuem flores; postos de gasolina entregam bombons; desconhecidos dirigem-lhe cumprimentos, felicitações, elogios.

Ninguém se dá ao trabalho de refletir sobre a mulher como pessoa livre, repleta de coragem, energia e perspicácia. Oculta-se nas celebrações que o dia internacional da mulher marca a luta por direitos; decide-se comparar a mulher a uma rosa perfumada, assim, trabalha-se o enfraquecimento da identidade feminina e o fortalecimento da hegemonia masculina.

Mas afinal, quem é a mulher brasileira?

Aí é que está: não há uma mulher, mas um universo de singularidades e experiências individuais que não deveriam ser generalizadas. Homenagear uma mulher abstrata é uma forma de não homenagear ninguém.

A abstração invisibiliza, por exemplo, a mulher negra, que tem de enfrentar camadas sobrepostas de opressão ao lidar com o racismo, o machismo e as profundas desigualdades sociais, além da violência decorrente da idealização fantasiosa de seu corpo como objeto sexual disponível.  Ignora-se a mulher trans, cuja vida é atravessada por perigos a todo momento e que não é poupada em nenhum tempo ou lugar, falta-lhe emprego, sobram contra ela a perseguição, o ódio, a brutalidade.

Cala-se a luta por igualdade salarial e esconde-se que o trabalho reprodutivo feito gratuitamente pela mulher impede que ela tenha tempo para ser criativa.

O assujeitamento da mulher já foi muito mais severo, mas se as mulheres do século XXI podem votar, administrar seus próprios bens e se divorciar (o que só passou a ser possível em 1977!), ainda são mortas por seus ex-companheiros, que as desumanizam a ponto de matá-las para que não “pertençam” a outro homem.

Nesse ponto sim, há uma mulher universal, pois não importa se têm ou não filhos ou profissão, todas são vítimas da violência patriarcal que deságua no feminicídio. A celebração do dia internacional da mulher, portanto, foi subtraída de sua relevância e substituída em sua essência para impor um modelo colonizado de mulher subalterna. A mulher hierarquizada é inferior aos homens e, assim, não deve estar nas conferências, nas Casas Legislativas, na cúpula do Poder Judiciário, nas tomadas de decisão. Em uma palavra, não deve ter autonomia.

Nega-se à mulher a liberdade por meio da associação de sua existência ao dever de cuidado e submissão à família e, na preservação do discurso machista, finge-se desconhecer que inúmeros arranjos familiares são monoparentais femininos.

No Brasil, a ferida colonial ainda está aberta, como destaca Grada Kilomba. A subalternização da mulher e o controle de sua subjetividade são formas de manter o domínio patriarcal e, na luta por controle, manter o homem branco heteronormativo no poder, conforme o modelo imposto pela colonização.

Nada disso, entretanto, é consentâneo com a democracia. As mulheres não querem apenas o invólucro da democracia, mas seu conteúdo concreto. As mulheres devem ser humanizadas: compreendidas em sua complexidade e multiplicidade, como cidadãs autônomas, condutoras da própria história e da história do país.

*Deizimar Mendonça Oliveira, mestre em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais, juíza do Trabalho em Cuiabá, coordenadora do Comitê Permanente de Gestão da Diversidade e Inclusão do TRT da 23.ª Região, integrante da Comissão Anamatra Mulheres

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