A hora é agora

A hora é agora

Dora Cavalcanti*

07 de outubro de 2021 | 10h05

Dora Cavalcanti. FOTO: DIVULGAÇÃO

As eleições para a OAB se aproximam. Seja qual for o resultado da votação no dia 25 de novembro, já podemos apontar como vitoriosa a trajetória das mulheres advogadas nesta caminhada. Saímos de um pleito em 2018 que não elegeu nenhuma advogada nas 27 seccionais para uma nova realidade em 2021: já somos 26 pré-candidatas a presidente das seccionais da OAB no país.

Aqui em São Paulo, comecei a jornada colocando meu nome à disposição como pré-candidata à presidência em março deste ano. Na ocasião, disse em alto e bom som que entrava nessa luta não para preencher cota, mas para ter voz ativa nos processos decisórios da nossa entidade de classe. Somos competentes, combativas e experientes, lideramos equipes e enfrentamos na tribuna os desafios vivenciados por nossos clientes.

Contrariando a lenda de que política de Ordem se faz na mesa do bar, tarde da noite e em espaços para os quais sequer somos convidadas, comecei a rodar o estado com a nossa Kombi para ouvir a advocacia, para entender as preocupações e os anseios das colegas e dos colegas que tiveram que seguir advogando em plena pandemia.

Ao longo desse percurso a gestão atual sofreu duas enormes baixas. A primeira dissidência, fundamentada em carta aberta, escancarou a quebra de compromissos de campanha, a recusa em implementar o voto online e o fracasso em assegurar os espaços prometidos às mulheres, em especial às mulheres negras. A segunda dissidência, constituída pelo movimento Elo – incluir e transformar, descortinou graves episódios de racismo explícito na gestão que foram lamentavelmente varridos para debaixo do tapete.

Em agosto, com os ventos da mudança, decidimos dobrar a aposta e convidar a colega Lazara Carvalho para ser nossa pré-candidata a vice-presidente. Não poderia ter sido uma aliança mais feliz. Zara trouxe energia, aliados, ensinamentos e amplitude à nossa pré-candidatura. Juntas, reforçamos nosso empenho em ampliar a representatividade de nossa entidade, e esperamos que a campanha para a renovação da OAB-SP seja um debate de alto nível sobre o futuro de nossa profissão e o papel da Ordem como alicerce da democracia e do Estado de Direito em nosso país.

O sentimento de que estamos no caminho certo foi confirmado em recente pesquisa divulgada pela imprensa nacional: 88% dos inscritos na OAB disseram que votariam em uma mulher. E mais que isso, 73% afirmam que chegou a hora de termos a primeira mulher presidente da OAB/SP.

Na semana passada vibramos com a chegada ao nosso grupo do colega Marcelo Pelegrini, que abriu mão de sua promissora pré-candidatura em Campinas para caminhar ao nosso lado, abraçando a ideia de que a advocacia quer mudança, e que esse processo de transformação deve ser liderado por mulheres. Ontem, já tarde da noite, recebi com imensa alegria a notícia de que outra chapa de oposição reconheceu que o sentimento da advocacia está posto. O advogado Leonardo Sica desistiu de disputar a eleição como candidato a presidente, dando lugar à colega Patrícia Vanzolini. É inegável, não dá mais para olhar a galeria dos ex-presidentes da OAB em seus 90 anos e só encontrar fotos de homens brancos.

Nas eleições que se avizinham, e que talvez sejam as mais importantes da história da OAB, temos a esperança de que o desejo por representatividade mobilize a advocacia a votar em peso. Que a abstenção de quase cinquenta por cento no último pleito dê lugar a um engajamento maciço. Vale sonhar com uma OAB potente e plural, que assim como nós mulheres se vire para dar conta de tudo, não leve desaforo para casa e rompa em definitivo com velhos paradigmas. Em 2021, mesmice não tem vez!

*Dora Cavalcanti é advogada criminalista

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