A hora dos investimentos desbancarizados

A hora dos investimentos desbancarizados

Gabriel Nascimento*

02 de fevereiro de 2021 | 06h45

Gabriel Nascimento. FOTO: DIVULGAÇÃO

Certamente você deve se lembrar com saudades dos tempos dourados que marcaram os anos entre 2005 e 2016. Com taxa Selic oscilando entre 19,75% e 14%, impulsionando todos os títulos públicos e CDBs, os investidores mais tradicionais estavam tranquilos enquanto obtinham ganhos até por meio da tão desprezada caderneta de poupança (que chegava a render 0,7% ao mês). E mesmo os investidores estrangeiros viam em nossas altas taxas de juros uma verdadeira galinha dos ovos de ouro, com a certeza de possibilidades seguras e excelentes rendimentos.

Infelizmente, durou pouco. O cenário mudou radicalmente, agravando-se sobretudo com a pandemia. Com as taxas de juros a modestos 2% ao ano, muitos investidores foram obrigados a migrar da segurança dos títulos indexados à taxa básica de juros para se aventurar em diferentes modalidades.

Entre elas, uma das alternativas ainda bem conservadoras seriam os fundos imobiliários; porém, viu-se que, durante o auge da crise ocasionada pelo corona vírus, eles não eram boa ideia. Afinal, são atrelados a aluguéis e, com a pandemia, houve muita renegociação, atrasos nos pagamentos e aumento da inadimplência. Sem falar que os fundos ligados aos shopping centers foram dos mais afetados, bem como aqueles ligados a hotéis, que amargaram bastante prejuízo.

Em contrapartida, os fundos ligados a papéis (indexados ao IGP-M) tiveram um ano relativamente bom, à medida que a taxa Selic abaixava. Mas ainda assim, a depender do tipo de fundo, os rendimentos nesta modalidade geram em torno de 8% ao ano em sua melhor performance – o que não chega nem perto do que se via no início dos anos 2000.

Dentro deste contexto, algumas modalidades de investimento que fogem da intermediação bancária estão ganhando espaço entre clientes que desejam ter segurança e alta rentabilidade ao mesmo tempo, como por exemplo o Peer to Peer Lending (P2P) – uma forma de pessoas ou empresas conseguirem empréstimo por meio de outras pessoas online, sem a intermediação de bancos. Segundo o Banco Mundial, o Brasil é vice-campeão mundial em spread bancário, ficando atrás apenas de Madagascar. Assim fica fácil imaginar por que plataformas de investimentos desbancarizadas têm tanto potencial por aqui, certo?

A grande concentração de recursos ainda está nas mãos de cinco bancos, que dominam 82% do mercado, de acordo com um estudo do Banco Central feito em 2018. No entanto, a tecnologia, com seus custos menores, está acelerando o processo de desbancarização.

Em terras brasileiras, o P2P ainda engatinha, mas já dá conta do recado no intuito de oferecer crédito a custos menores para o tomador e rentabilidade competitiva ao investidor – as operações chegam a obter taxas de retorno entre 15% a 18% – números próximos aos observados no retorno de títulos públicos e CDBs no início dos anos 2000.  E bem mais altos do que os atuais oferecidos pelos fundos imobiliários.

Em todo o mundo, já existem incontáveis plataformas de P2P, sendo este um mercado que movimentou mais U$65 bilhões apenas 2015. A Inglaterra, por ser o berço, é um dos maiores mercados, ao lado de EUA e China. O sucesso se deve ao fato de que este tipo de investimento é mais rentável do que 90% das modalidades existentes no mercado, e também considerado bastante seguro.

Apesar dos números extraordinários em termos de ganhos e do mercado em ascensão, obviamente, por se tratar de empréstimo, o investimento em P2P tem seus riscos. Mas existem mecanismos capazes de mitiga-los e o primeiro deles é apostar na diversificação: emprestar sim, mas para várias empresas, de vários setores e de diferentes portes. Isso possibilita que, em caso de perdas em um dos segmentos, os demais garantem compensação.

Um segundo fator para redução de riscos é a análise de crédito acurada, realizada de maneira correta e por ferramentas de última geração. E mesmo que algum cliente venha a ficar inadimplente, a fintech deve garantir a execução judicial para garantir o recebimento dos valores devidos.

Por enquanto, no Brasil, só é possível emprestar valores para empresas – o que é mais seguro para o investidor, afinal a qualidade e o nível de detalhe das informações disponibilizadas pelas empresas é maior, permitindo uma análise de crédito mais precisa.

Felizmente, o P2P não está sozinho na missão de trazer inovação e tecnologia para o mercado financeiro. Existem muitas fintechs com o mesmo objetivo: oferecer serviços que antes eram exclusividade dos bancos, porém de forma online e com uso de tecnologia de última geração. A expectativa é que cada vez mais inovações surjam para renovar a cena dos investimentos no Brasil, e que novas possibilidades sejam asseguradas de maneira mais simples, mais baratas e também mais seguras.

*Gabriel Nascimento é CEO da Ulend

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