A hora da autonomia

A hora da autonomia

Cassio Grinberg*

07 de abril de 2020 | 05h30

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Se de um lado os eventos drásticos viram nossa vida de ‘cabeça para baixo’, eles também pisam no acelerador de comportamentos que até já surgiam no horizonte.

Não é de hoje, por exemplo, que o mundo corporativo tem experimentado o modelo de ‘empresas sem chefes’. A Patagonia, marca de roupas e equipamentos para escalada, permite desde a década de 1970 que seus funcionários parem o que estiverem fazendo para irem surfar. Na Netflix, os funcionários tiram férias quando bem entendem.

E de repente, ficamos ‘sem chefes’. Trabalhando de home office, estamos como aquele pai que dava uma entrevista na BBC e teve seu escritório invadido pelas crianças. E sabe o que é mais interessante? Estamos gostando disso!

As épocas de mudanças também acentuam os paradoxos, e vivemos, neste momento, um paradoxo fundamental: não podemos sair para surfar, já que estamos “presos” em nossas casas. No entanto, profissionalmente, conquistamos uma liberdade nunca antes sentida. E que, quando a vida voltar ao normal, talvez não queiramos abrir mão.

Só que a vida não voltará ao normal. O escritor Haruki Murakami costuma dizer que, se damos um giro e regressamos à beira de um rio, o rio estará diferente também porque nós mesmos mudamos. Meu querido amigo Dado Schneider, um dos principais palestrantes do Brasil, já vem falando sobre um “novo normal”.

E qual será este novo normal nas empresas? Como gerenciaremos as equipes em um novo ambiente corporativo?

Israel, um dos países que vem melhor enfrentando o problema do novo coronavírus, nos ensina que a liberdade pode ser determinante na tomada de decisões — desde que acompanhada da responsabilidade necessária para merecê-la. Trata-se de um caso em que a cultura de ‘empresas sem chefes’ é a base do genoma de um país inteiro.

Viveremos, daqui para frente, um cenário irreversível no que diz respeito ao binômio liberdade + responsabilidade. E reforçaremos, com isso, uma cultura que pode alavancar toda a criatividade nos negócios. Já sabemos, hoje, identificar os profissionais que, mesmo de casa, são capazes de dar respostas à altura dos desafios.

E é bom que saibamos cultivá-los; até porque, quando for hora de acelerar a retomada, esses serão justamente os profissionais mais disputados, e que não toparão retroceder ao antigo normal.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting e autor do livro Desaprenda – como se abrir para o novo pode nos levar mais longe

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