A hipocrisia triunfante

A hipocrisia triunfante

José Renato Nalini*

16 de março de 2022 | 05h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

A recente aprovação, pela Câmara dos Deputados, do Projeto de lei que legaliza os jogos é um alento. Um Congresso que só cuida do próprio interesse, que não hesita em aprovar Fundo Eleitoral de seis bilhões, enquanto vinte milhões de brasileiros passam fome, não animaria os que defendem o retorno do jogo. Sou um deles. Na verdade, não é “retorno”, porque se joga abertamente no Brasil. Lotos, loterias, lotecas, páreos de cavalos de corrida, os jogos na internet, mostram que jogar é algo natural entre os humanos.

Para os que duvidam disso, é interessante que leiam o livro “Homo Ludens”, de Johan Huizinga, um famoso historiador e linguista holandês, considerado um dos mais influentes pensadores da história da cultura moderna. Escreveu “O outono da Idade Média”e “Nas sombras do amanhã” e foi professor na Universidade de Amsterdã, de Groninguen e de Leiden. Em 1942 os nazistas ocuparam a Holanda. Foi expulso da cidade, o que é compreensível, pois nazismo não combina com talento e cultura. Preso pela Gestapo, ficou confinado na casa de um amigo, onde morreu pouco antes da II Guerra terminar. Legou-nos esta lição: além de ser homo sapiens, homo economicus, homo ethicus, o ser humano tem uma feição importante como homo ludens.

Ele foi lúcido e sábio o suficiente para considerar o jogo um fenômeno cultural. Não é fruto da imaginação ou achismo. Parte de estudos etimológicos e etnográficos de sociedades distanciadas, cultural e temporalmente, das nossas. Jogar é algo inato ao homem e aos animais. Categoria absolutamente primária da existência, anterior mesmo à cultura. Foi o jogo que gerou a evolução da cultura.

Suas frases são marcantes: “A existência do jogo é inegável. É possível negar, se quiser, quase todas as abstrações: a Justiça, a beleza, o bem. É possível negar-se a seriedade, mas não o jogo”.

E o que é o jogo para Huizinga? “O jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras e limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria de ter consciência de ser diferente do cotidiano”.

Como o surreal é rotina em nossa Pátria, o jogo foi proibido no Brasil por influência de “Dona Santinha”, como era conhecida a “Primeira dama”, esposa de Eurico Gaspar Dutra. Com isso, mais de setenta mil brasileiros ficaram sem trabalho. Não eram apenas os que se dedicavam ao jogo nos maravilhosos cassinos, frequentados por estrangeiros de vários países. Eram também os cantores, os músicos, os garçons, os cozinheiros, o que afetou centenas de milhares de pessoas jogadas – sem trocadilho – à rua da amargura.

A civilização não usa de subterfúgios e explora livre e naturalmente o jogo, fonte de receita para o Estado e fator de sobrevivência para milhões de profissionais. Só que o Brasil, assim como permaneceu décadas numa cegueira entrópica que o manteve afastado da modernidade, entende que o jogo é monopólio do Estado. Sob o pífio argumento de que haverá corrosão da moral, quer preservar a situação em que todos jogam, mas com a falácia de que o jogo é proibido.

Indigência moral é restar inerte diante de vinte milhões de famintos, de quinze milhões de desempregados, de quantos milhões de desalentados, porque as promessas de vida digna não se concretizaram e estão a cada dia mais longe do horizonte dos abandonados à própria sorte.

O jogo abriria milhares de empregos. Traria estrangeiros para os cassinos em cidades turísticas, fomentando essa indústria também abandonada, em face das notícias sobre violência, desmatamento, armamento geral da população irada, miséria e exclusão.

Causa espécie que a CNBB se manifeste contra o jogo, alinhando-se à “Bancada Evangélica”, se a história da Igreja no Brasil é prenhe das quermesses paroquiais, onde nas barracas gestadas pelos fiéis, sempre havia a “tômbola”, um jogo que alimentou muitas obras pias e assistenciais católicas.

O jogo familiar sempre foi uma prática rotineira no Brasil antes da televisão e da invasão digital que inebriou a população e deixou quase todos dependentes das telinhas.

Espera-se que o Senado ratifique os 246 votos a favor da legalização, para que o homo ludens tenha a sua vez, aja às claras e não precise de subterfúgios para fazer aquilo que é intuitivo ao ser humano. E que essa maioria consciente de que é preciso oferecer perspectiva de dignidade aos desempregados, rejeite eventual veto por pressão do anacronismo.

A atividade lúdica, para o Brasil de hoje, é a salvação para o clima de desalento geral. Assim que legalizado, apostem que os detratores cuidarão de explorá-lo também, pois sabem que ele é rentável e atrativo.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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