A herança política de Lázaro

A herança política de Lázaro

*Rodrigo Monteiro

01 de julho de 2021 | 16h26

Lázaro de Betânia é um personagem bíblico descrito no Evangelho de João (11:1-46), que foi ressuscitado por Jesus Cristo após quatro dias de seu sepultamento. Seu nome tem origem no hebraico Eleazar, que significa “Deus ajudou”.

Rodrigo Monteiro. FOTO: DIVULGAÇÃO

Outro “famoso” com o mesmo nome foi Lázaro Barbosa, criminoso que durante vinte dias logrou êxito em fugir das forças policiais estatais após assassinar quatro pessoas de uma mesma família na região de Ceilândia, no Distrito Federal. Diversamente do personagem bíblico, o “Lázaro brasileiro” foi morto no último dia 28 de junho ao final de uma perseguição cinematográfica que ganhou os holofotes de toda a mídia nacional e, como não poderia ser diferente, das redes sociais.

A caçada ao criminoso Lázaro é dotada de vários antagonismos, sendo o primeiro, de ordem econômica. O município goiano de Cocalzinho tem como relevante fonte de receita o turismo ecológico e, em razão do medo gerado pela operação de captura, nas últimas duas semanas o movimento de turistas praticamente desapareceu. De outra sorte, comerciantes do município de Girassol, também em Goiás, comemoram o aumento das vendas em razão do crescimento da movimentação de pessoas no local, sobretudo policiais e jornalistas.

Além dessa divergência econômica, é possível apontar que a morte de Lázaro já impulsionou o cenário político, mesmo sabendo que as próximas eleições ocorrerão apenas em outubro de 2022. Aqueles que defendem que houve excesso e despreparo das forças de segurança pública na ação que levou à morte do criminoso estão usando esse discurso para fortalecer o eleitorado que comunga das mesmas ideias. Noutro sentido, defensores da máxima “bandido bom é bandido morto” estão surfando nessa onda e buscando fortalecer o respectivo capital político.

Não será surpresa para ninguém se no pleito eleitoral de 2022, ocasião em que serão escolhidos o Presidente da República, senadores, governadores, além de deputados federais e estaduais, percebermos a existência de candidatos vinculados às forças de segurança pública que se apresentem como organizadores ou responsáveis pela operação de caçada ao criminoso Lázaro Barbosa, com o claro intuito de obtenção de votos dos defensores da máxima que “bandido bom é bandido morto”.

No Brasil, tudo é utilizado para a obtenção a capital político. No Brasil, tudo vira motivo para se impulsionar a tensão social ocasionada pela dicotomia política entre direita e esquerda. No Brasil, tudo vira capa de jornal ou de grandes portais de internet, desde a notícia de uma grotesca e claramente falsa montagem de uma fotografia do ex-presidente Lula, ao lado do criminoso Lázaro, à postagem do atual Presidente da República, que em uma rede social escreveu “CPF cancelado”. Em suma, todos querem tirar proveito dos trinta segundos de fama derivados desse triste episódio.

A morte de Lázaro ainda vai dar muito o que falar. Quem sabe até resolvam instaurar uma Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI ou, quem sabe, gravar um filme. Infelizmente (ou felizmente), para o azar daqueles que pretendem obter capital político com o resultado da operação policial – seja enaltecendo o trabalho dos agentes de segurança pública ou mesmo criticando um eventual excesso – a memória do povo é curta. O ideal, na perspectiva da obtenção do capital político, seria que toda essa tragédia tivesse ocorrido em junho de 2022, às vésperas das eleições.

Assim, é muito provável que em pouco tempo ninguém mais se lembrará de Lázaro Barbosa e somente o episódio envolvendo o Lázaro de Betânia voltará a ser citado e debatido nas escolas dominicais das religiões cristãs.

*Rodrigo Monteiro, Promotor de Justiça (MP-ES), doutorando e mestre em Direito.

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.