A guerra das CPIs e o governo Bolsonaro

A guerra das CPIs e o governo Bolsonaro

Rodrigo Augusto Prando*

13 de abril de 2021 | 10h30

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

Foi determinada a criação da CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito – por decisão monocrática do Ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso. Os incautos ou mesmo os mal-intencionados, num primeiro momento, entenderam a ação de Barroso como uma ingerência do Poder Judiciário (STF) em relação ao Poder Legislativo (Senado) para se atingir o Poder Executivo (Presidente da República).

Contudo, distante das paixões que obnubilam a visão, cabe destacar que Barroso agiu a partir de uma provocação ao Judiciário, ou seja, a decisão teve origem em mandado de segurança de dois Senadores: Alessandro Vieira e Jorge Kajuru, ambos do Cidadania. Segundo entendimento de Barroso, a CPI deveria ser instaurada por Rodrigo Pacheco, Presidente do Senado, porque cumpria os requisitos legais: número mínimo de assinaturas (1/3 dos senadores), indicação de fato determinado a ser apurado e definição de prazo certo para sua duração. Em jurisprudência do próprio STF, outras CPIs já haviam sido determinadas por decisão da Corte, inclusive, numa delas, o então Deputado Jair Bolsonaro foi favorável à decisão do STF. Assim, o escopo da CPI no Senado é o de “apurar as ações e omissões do Governo Federal no enfrentamento da pandemia da Covid-19 no Brasil e, em especial, no agravamento da crise sanitária no Amazonas com a ausência de oxigênio para os pacientes internados”. Aqui, portanto, tem a gênese da guerra das CPIs que, em voga, repercute nos meios políticos e jurídicos. Sabendo de tudo o que fizeram e do que deixaram de fazer, Bolsonaro, bem como o Ex-Ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, não desejam, em nada, uma comissão constituída de parlamentares que os investiguem. Até porque as falas de Bolsonaro e Pazuello e suas ações foram amplamente registradas em lives, entrevistas e postagens nas redes sociais.

A reação política do governo veio, num primeiro momento, na intenção de convencer uma parte dos senadores a retirarem suas assinaturas. Pelo visto, até aqui, tal estratégia não surtiu efeito. No último final de semana (10 e 11 de abril), o Presidente Bolsonaro foi gravado numa conversa que teve com o Senador Jorge Kajuru, o mesmo que levou ao STF o mandado de segurança para a criação da CPI. No referido diálogo, o presidente pressiona o senador para que entre com pedidos de impeachment contra Ministros do STF e, com isso, tinha (ou tem) a crença de que a Corte arrefeceria em relação à confirmação, pelo pleno, da decisão monocrática de Barroso. Bolsonaro até sugere fazer do limão uma limonada. Como em política o susto e até a sinceridade, quase sempre, são combinados, não se sabe, ao certo, qual a intenção de Kajuru ao divulgar o teor da conversa com Bolsonaro. O que se pode, certamente, constatar é que o Chefe do Executivo, Bolsonaro, sugere conduta a um senador (Legislativo) objetivando atacar o Judiciário (ministros do STF). É pouco? Para juristas, Bolsonaro pode ter incorrido em crime de responsabilidade.

Já, na segunda-feira, 12/04, outras estratégias são postas à mesa para tentar diluir a CPI e tirar Bolsonaro de seu foco. Uma delas consiste em ampliar a CPI determinada por Barroso para incluir, na investigação, supostos desvios de recursos federais por parte de governadores e prefeitos. Essa é uma fala recorrente de Bolsonaro e dos bolsonaristas: a situação pandêmica está neste nível de desgraça por conta da corrupção de prefeitos e governadores e não por conta de gestão do Governo Federal. A segunda estratégia consiste na criação de uma nova CPI ampla já na origem, investigando estados e municípios, bem como o Governo Federal, levada a cabo pelo governista, Senador Eduardo Girão (Podemos), contando com 34 assinaturas. É certo que quaisquer atos de corrupção – de desvio de recursos públicos – deve ser denunciado e investigado. O cidadão tendo conhecimento de tais fatos pode, também, procurar a Justiça e, mais ainda, funcionário público que, tendo conhecimento de corrupção e não denunciando, cometeria prevaricação. No entendimento do governo, ampliar a investigação para governos estaduais e municipais seria capaz de amainar os ímpetos dos membros da comissão já que Senadores possuem estreitos laços com esferas estaduais e municipais.

Seja qual for o resultado da instalação de uma ou de duas ou de várias CPIs , atores políticos e ministros do STF asseveram que há dificuldades para colocar em funcionamento uma comissão na situação de trabalho remoto por parte dos senadores. Obviamente, muitos trabalhadores estão em home office, mas a dinâmica de uma CPI, ouvindo depoimentos, por exemplo, deve ser presencial, para se evitar que os depoentes sejam auxiliados, direcionados ou constrangidos. A CPI das fake news, por exemplo, está parada há um ano por conta da pandemia. Por isso, paira no ar a ideia de que, mesmo sendo criada, a CPI só seria realizada após o retorno à normalidade, sendo possível encontros presenciais.

De uma forma bem clara, os episódios em tela – das CPIs – são, mais uma vez, retratos de uma opção por parte do Governo Bolsonaro. O bolsonarismo que abocanhou o governo e as instituições é ótimo no quesito confrontar, mas tem sido péssimo no campo da gestão e da governabilidade. As escolhas de Bolsonaro e de seu núcleo ideológico duro consegue manter os bolsonaristas, nas redes e nas ruas, em alerta, prontos para a “batalha”; todavia, os números de doentes e mortos na pandemia, desprezo na compra de vacinas, atrasos na vacinação,  de uma economia combalida, do aumento dos preços e da inflação, do desemprego, da fome, do isolamento internacional e do governo refém do Centrão, da tão atacada “velha política”, é sinal de que toda opção traz, em seu bojo, consequências a curto, médio e longo prazo.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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