A guerra da Ucrânia e o acordo climático global

A guerra da Ucrânia e o acordo climático global

Carlos Bocuhy*

29 de março de 2022 | 09h20

Kiev. FOTO: FELIPE DANA/AP

A guerra da Ucrânia, além da enorme crise humanitária para as populações do país e os riscos de um conflito global, tem consequências graves também ao meio ambiente. O conflito, que já ultrapassa um mês, denota sobretudo uma perda da razão civilizatória e o prejuízo na agenda climática, justamente em um período considerado estratégico para a implementação de medidas que se fazem urgentes, conforme demonstra o recente relatório AR6 do Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC).

A divulgação do relatório acabou abafada pelo conflito na Ucrânia. O documento mostra que a crise climática ocorre mais rápido do que se esperava e que partes do mundo se tornarão inabitáveis nas próximas décadas se ações urgentes não forem tomadas agora. A urgência é comprovada em relatórios científicos gerados por especialistas de quase uma centena de países.

No caso da guerra na Ucrânia, os impactos ambientais são perfeitamente mensuráveis. O avanço militar com deslocamento de grande número de tanques, blindados, veículos pesados, aeronaves de combate, mísseis, artilharia e explosivos lançaram poluição, estilhaços, elementos químicos poluentes e toneladas de carbono na atmosfera, com intensa queima de combustíveis fósseis.

Obviamente, na guerra a contenção da poluição não é prioridade. Resta apenas seu passivo ambiental, com um elevado preço para o ambiente e para a sociedade.  Veículos pesados atravessaram áreas ambientalmente frágeis, abrindo fogo com artilharia e mísseis. Várias áreas guardiãs de biodiversidade foram impactadas, especialmente as sensíveis áreas úmidas próximas ao litoral, 33 das quais são consideradas de relevância internacional, abrigando 35% da biodiversidade da Europa, com 70.000 espécies de rara e endêmica flora e fauna.

Carlos Bocuhy. FOTO: DIVULGAÇÃO

Há impactos também para a segurança alimentar global. A contaminação ou a falta de produção de trigo e milho, em um sistema de abastecimento globalizado, afetará ainda neste ano países da África e da Ásia, segundo recente alerta emitido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Ao avaliar os indicadores sobre qualidade do ar, proteção da biodiversidade e saúde ecossistêmica, a Ucrânia já apresentava atrasos na agenda ambiental, segundo avaliação de pesquisadores da School Internacional Service, de Washington. Essa situação se agrava com a fragilização, senão destruição, dos sistemas de controle ambiental trazidos pela guerra. A recuperação poderá demandar décadas e um grande volume de investimentos.

A divisão do mundo, a partir da guerra da Ucrânia, está materializando o risco protelatório que se dava nos bastidores das conferências de mudanças climáticas, provocados por demandas por supremacia econômica entre EUA e China.

Os efeitos estão indo para além da intensa disputa remanescente da guerra fria entre Estados Unidos e Rússia. Estamos assistindo ao efeito narcótico de uma guerra localizada sobre aspectos urgentes e impostergáveis para a sobrevivência global.      Organizações de 75 países emitiram uma carta aberta através da Associação de Construção da Paz Ambiental para expressar sua preocupação com o impacto ambiental e humanitário da guerra.

Desde 1947 o relógio do Juízo Final (Doonsday Clock), criado em Washington pelo Boletim dos Cientistas Atômicos (entre estes Albert Einstein) para registrar ameaças letais à humanidade, está muito próximo de seu ápice, à meia-noite. Entre os elementos que o movimentam hoje estão os riscos da escalada nuclear diante do conflito na Ucrânia e a inação frente às mudanças climáticas.

O novo cenário de profunda divisão entre Rússia e demais nações do Ocidente está obstruindo a urgência de redução das emissões dos Estados Unidos, da China e demais países do G20. Retomar imediatamente — e com efetividade — a agenda climática, é a ação absolutamente prioritária para a sobrevivência de muitos países, entre estes o Brasil.

*Carlos Bocuhy é presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)

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