A guerra acabou!

A guerra acabou!

José Renato Nalini*

21 de maio de 2022 | 05h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Muita gente já soube que alguns japoneses se recusaram a acreditar que a II Grande Guerra Mundial já acabara. Lutavam pelo seu Imperador, considerado um ser divino, resquício concreto da famosa teoria do “direito divino do monarca”. Tão confiantes nesses poderes que lhes não passava pela cabeça pudessem perder o conflito, vencido pelos aliados.

Até aqui no Brasil, alguns japoneses que imigraram estavam nessa bizarra situação. Mas o caso mais célebre é o de Hiroo Onoda, que passou quase trinta anos nas Filipinas, cumprindo a missão de que o comandante o incumbira: defender Lubang, uma pequena ilha, para segurança japonesa.

Essa odisseia é impressionante. Onoda comandava um grupo de sete soldados, que iam se reduzindo com o passar do tempo. No final, estava sozinho. Sem munição, servia-se de uma espada, que amolava com paciência e perseverança e com a qual matou cerca de trinta filipinos.

Pouco adiantou a tentativa de convencê-lo de que a guerra terminara. Jornais, panfletos, mensagens eram deixados para ele, que sabia se esconder na selva, mas ele tinha a certeza de que esse material fora deixado pelos inimigos, para confundi-lo.

Somente em 1974, quando se pensava que ele estivesse morto, foi possível recambiá-lo para o Japão. No final, ele veio a morar no Brasil, juntando-se a um irmão que imigrara para o Mato Grosso e vivia da agricultura.

Tudo isso é contado no livro “Crepúsculo do Mundo”, escrito por Werner Herzog, pensador que é mais conhecido como cineasta. A ideia surgiu em 1997, quando estava em Tóquio para dirigir uma ópera e recebe o convite para uma audiência com o Imperador. Para estupefação de todos os que estavam com ele, recusou-se. Achou que seria uma formalidade sem sentido. E confessou que o único japonês com quem gostaria de se encontrar seria Onoda.

Herzog é muito polêmico. Seus filmes são “cult” e evidenciam sua excentricidade. Por exemplo: o nome original de “O Enigma de Kaspar Hauser” era “Cada um por si e Deus contra todos”. Por isso o seu livro já está sendo criticado. Alguns dizem que ele glorifica Onoda, isentando-o de haver assassinado trinta inocentes. Outros o acusam de ser machista, pois a obra não tem qualquer presença feminina.

Ele responde dizendo que o soldado japonês matou, sim, cerca de trinta filipinos. Mas sobreviveu a mais de cem emboscadas. Quanto ao machismo, ele é um homem e só poderia escrever como homem.

O interessante para quem se propuser a ler esse livro, publicado pela editora “Todavia”, é pensar o quão atual é a situação de quem prefere se ausentar da realidade para cultivar crendices como “a Terra é plana e não redonda”, “a Amazônia está hoje igualzinha a como era em 1500”, “há uma conspiração internacional para boicotar o Brasil”, “toda Universidade é comunista” e outras tantas.

São criaturas como Onoda, que de 1945 a 1974, durante vinte e nove anos, lutou praticamente sozinho uma guerra que terminava sete meses depois de sua chegada à ilha filipina. Quem se propõe a acreditar numa coisa, não tem olhos nem ouvidos para a verdade. Com a agravante de que, em nossos dias, a internet se vale da inteligência artificial que, com seus algoritmos, manipula a consciência e fortalece as intuições, depois convertidas em consistentes crenças até se converter em fanatismo.

Só que Onoda escreveu um livro “Os Trinta Anos de minha guerra”, aqui publicado pela editora Shinbum. Termina sua obra indagando: “Por que lutei durante 30 anos? Por quem? Qual era a causa?”.

Será que os brasileiros abduzidos terão condições de se fazerem tais perguntas? Ocorrerá o benefício da dúvida, que se for metódica, e não sistemática, é poderoso auxiliar da busca da verdade. Ou morrerão com as certezas que lhes foram impingidas, estranhando que o mundo não se encaixe exatamente no modelo que lhes foi oferecido?

Outra analogia entre Onoda e os que acreditam piamente nas redes sociais, que insistem no reforço e na ênfase daquilo que já habita a mente dos usuários, é que por confiar em sua certeza, o japonês matava inocentes. Um perigo armar fanáticos, pois a paixão cega por uma causa é suscetível de ceifar outras vidas.

É preciso berrar para que todos ouçam: “a guerra acabou!”. Ainda que seja a guerra de narrativas, um dos fenômenos mais instigantes deste planeta que mergulhou, irreversivelmente, na disruptiva mutação proporcionada pela Quarta Revolução Industrial.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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