A grande ruptura

A grande ruptura

José Renato Nalini*

08 de novembro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Não é fácil diagnosticar o presente. Imersos num complexo vórtice de fenômenos, o ser humano sequer tem noção de como a posteridade batizará a época em que viveu. A experiência existencial é breve. Algumas décadas e pronto. Os viventes do Renascimento não tinham ideia de como seria chamada a sua era. Menos ainda os humanos do que hoje se convencionou chamar de Idade Média.

Tenho, pessoalmente, a simplória impressão de que daqui a duzentos anos as primeiras décadas do ano dois mil da era Cristã serão chamadas de “A Grande Ruptura”. Este é também o nome de um livro que Ronaldo Lemos publicará no ano que vem. Ele parte da ideia de que tudo o que era parâmetro referencial em nossa história – teorias, filosofias, obras de arte, livros, cinema, fotos e música – perdeu essa categoria e só serve para provocar emoções. O emocional é que predomina hoje. Isso é detectado pelas redes sociais, que nos conhecem muito melhor do que nós mesmos e conseguem provocar reações que não poderíamos imaginar.

Para o fundador do ITS – Instituto Tecnologia e Sociedade, ninguém melhor do que o Tik-Tok se apropriou dessa habilidade de analisar preferências inconscientes. Mas também o Spotify, que ele considera a plataforma de música mais popular no Ocidente. Essa empresa obteve neste ano, uma patente do processo de análise das emoções do usuário e do seu ambiente para que possa, de maneira estratégica, recomendar o que ele deve ouvir em seguida. Mais do que experiência e gostos acumulados, o que interessa é sua emoção. Consegue detectar seus traumas, suas angústias e preocupações e sugere músicas adequadas a esse flash emocional.

A Grande Ruptura, para Ronaldo Lemos, é a cultura da ansiedade. Não se pretende informar, mas modular experiências imediatas, especialmente estados emocionais. Não há conteúdo, senão flechas certeiras, que atingem o alvo. O destinatário não se dá conta disso. Contribui com o engajamento, que faz a fortuna de influencers convertidos em celebridades e com milhões de seguidores.

É um período surreal, em que a emoção faz as escolhas. Mais do que isso, a perturbação emocional causada pelas brevíssimas e contundentes mensagens impõe as opções.

Como acreditar que essa multidão teleguiada pelas redes sociais, manipulada e suscetível de mudar de opinião como se muda de roupa, venha a se conscientizar dos riscos de uma péssima escolha nas eleições de 2022?

Compreendo a tese de Ronaldo Lemos, a quem admiro. Mas, para mim, a “Grande Ruptura” tem a ver com os valores. A falta de educação de qualidade não preparou a população para efetivamente influenciar a gestão da coisa pública. Todo ocupante de cargo público eletivo se considera alvo de reverências, homenagens, culto à personalidade e nunca se coloca na posição de “servidor”. E não há qualquer exercente de função estatal que não seja “servidor”. Vive para servir. Está a serviço do povo, o único titular daquele atributo que foi extremamente relativizado, mas persiste no pacto fundante – todo o poder emana do povo – e também subsiste no discurso. Principalmente quando ele se faz de forma também emocional, para despertar os brios dos patriotas feridos quando estrangeiros criticam nossos desmandos em relação à natureza.

A Grande Ruptura significa o rompimento das comportas do comedimento, da sensatez, da racionalidade. Por essas fendas que logo se alargaram, foi-se embora a compostura, a responsabilidade, a probidade, a observância das regras mais elementares do convívio.

Quem é que se aventuraria a dizer que a seriedade teria a mínima chance de obter espaço nas plataformas que hoje ordenam o comportamento dos milhões de seres dependentes da internet? Num Brasil periférico e que perde colocações no concerto das nações civilizadas, já existem mais de trezentos milhões de mobiles. Crianças, idosos, moradores de rua, manuseiam com desenvoltura seus celulares. Uma interrupção no Facebook foi causa de verdadeira comoção nacional.

Como é que a inteligência brasileira, tão enclausurada e restrita à pregação para convertidos, como é que a Academia e os fragmentos de lucidez restantes poderão se opor a essa avalanche demolidora da Grande Ruptura?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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