A grande disrupção

A grande disrupção

Marcio Grazino*

26 de abril de 2020 | 04h00

Márcio Grazino. FOTO: DIVULGAÇÃO

Ainda não é possível concluir sobre todas as consequências da crise que estamos atravessando, mas uma coisa é certa: o mundo será outro. Comportamentos, relações, consumo e negócios em geral estão sofrendo impactos que vão mudar suas características para sempre. Isso é inevitável, então, não se trata de gostar ou não gostar, mas de como dar uma abordagem positiva ao processo.

Para quem ainda não tinha percebido, a crise deixou claro que ninguém é autossuficiente, por mais recursos que disponha. As pessoas e os negócios dependem de uma sociedade e uma economia em bom funcionamento para progredirem e até mesmo sobreviverem.

“Você pode ter o dinheiro, o plano de saúde, mas simplesmente não há sistema para você entrar”, explicou o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, ao descrever um eventual colapso do sistema de saúde. O exemplo pode ser adaptado a praticamente qualquer situação em um ambiente de caos e deveria servir agora para orientar um movimento solidário de preservação e de enfrentamento a novas crises, que de tempos em tempos voltam a ocorrer.

Em primeiro lugar, é importante que todos se convençam de que a saúde do outro, neste caso das pessoas e de empresas, concorrentes ou não, também é importante para ele próprio. Ninguém ganha quando alguém ou uma companhia desaparece. Sempre que isso acontece, a nossa própria existência fica mais frágil.

No caso da economia, cada falência provoca uma onda que vai provocando estragos em cadeias produtivas e de consumo. São trabalhadores que perdem empregos diretos, fornecedores que deixam de ser pagos e, por consequência, demitem funcionários que deixam de comprar no comércio que, igualmente, vai ter que demitir e assim por diante.

Com essa visão, empresas concorrentes podem ser parceiras de verdade nos interesses comuns sem deixar de competir por mercado, é lógico. A cooperação, em muitos pontos, traz benefícios para todos e torna, paradoxalmente, os agentes mais competitivos, ou seja, mais fortes.

Unidas, empresas de um mesmo segmento ou região podem desenvolver mais rápido o modelo de negócios, como a transformação digital, por exemplo. Investimento conjunto em inteligência pode apontar com mais precisão as vulnerabilidades e ações preventivas. Todas juntas podem constituir reservas para emergências, se relacionar de modo mais eficiente com o poder público e promover ações sociais relevantes para as comunidades.

O que estamos vivendo hoje pode ser o estímulo para a grande disrupção que vai corrigir nosso rumo para um horizonte mais positivo. A reconstrução dos nossos valores e bases de comportamento, centrados na necessidade de solidariedade e empatia, em um ambiente em que todos – ou pelo menos a maioria – estarão dispostos de fato a oferecer sacrifícios para o bem geral.

Por fim, espero que tudo isso se preste também para restabelecer o valor da ciência e do conhecimento, que são base – junto com as tradições – para o desenvolvimento da nossa espécie. A humildade de ouvir e aprender com quem tem mais experiência e informação foi o que nos tirou das cavernas. E é esse hábito saudável que vai impedir que a gente volte para dentro delas.

*Marcio Grazino, empresário

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