A gente não acredita

A gente não acredita

José Renato Nalini*

12 de abril de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Ouve-se muito que a história, quando se repete, é como farsa. Também está na memória dos que têm mínima noção de História do Brasil, o episódio do baile da Ilha Fiscal. A República germinando e o Imperador recebendo a aristocracia e os áulicos de sempre num baile que ficou registrado como a falta de noção do governante, quanto à verdadeira situação de seu reino.

É comum citar-se aquilo que Maria Antonieta teria dito ante a notícia de que os franceses não tinham pão: “Então, que comam brioches!”.

Por que tudo isso?

São devaneios que surgem como companhia do confinamento para quem está aturdido pela desgraça brasileira e vê que existe espaço para jantar, para abraços, para aplausos e para o servilismo tupiniquim que não varia. Pode variar de governante, mas a corte laudatória é sempre a mesma. Quem tem algo a extrair do poder, tem também espinha dorsal complacente. Bajula quem estiver lá. Amanhã será outro, mas a bajulação continuará inalterável.

Como será que dormem os que parecem não se preocupar com a periclitante situação brasileira?

Aproximamo-nos, rapidamente, de meio milhão de mortos. Imagine-se o que significa isso em termos de luto, choro, infelicidade e ruptura do chão de quantas famílias!

Aumenta a legião dos desassistidos. Os invisíveis, os informais, os desempregados, os sem teto, os sem comida, os sem saneamento básico, os sem perspectiva, nem esperança.

As UTIs totalmente preenchidas, nada obstante a multiplicação dos leitos destinados a essa fase de terapia intensiva. Faltam medicamentos para sedação, tubos de oxigênio, insumos para a fabricação de vacina.

O pessoal que está na linha de frente encontra-se extenuado. Além da dedicação exclusiva e permanente, a frustração de ter de comunicar às famílias mais um óbito, e mais um, e mais outro…

Faltam caixões, faltam covas, faltam coveiros. Enterra-se à noite. Contratam-se condutores autônomos para servirem de motoristas funerários. Convenia-se com o grupo de crematórios particulares, pois os estatais não dão conta. Ergue-se às pressas uma necrópole vertical.

Veiculam-se notícias sobre a falibilidade da imunização, mesmo após segunda dose. Outras vacinas dão reações adversas, tanto que proibidas em alguns países

A repercussão internacional já chamara o Brasil de pária pelo maltrato conferido ao meio ambiente. Enquanto as nações poderosas e civilizadas compreendem que a catástrofe ambiental é uma das concausas da peste e constitui a maior ameaça à civilização neste século, o Brasil resolve desmontar toda a estrutura protetiva lentamente construída ao longo de décadas. Prestigia-se a extração ilegal de madeira, incentiva-se a invasão de terras públicas protegidas e o garimpo criminoso em áreas indígenas.

Agora, o Brasil é pária também por causa da praga. Somos uma incubadora de novas cepas. Todas mais transmissíveis e mais letais. Aquilo que não seria imaginável, de repente converteu-se em realidade: os países fecham suas fronteiras aos brasileiros. E não permitem que seus cidadãos tenham por destino esta Nação grandiosa, que teria tudo para ser a maior potência turística do planeta.

Uma terceira ameaça paira no ar e o Brasil emite sinais de que também não prestigia a sua democracia. Quais são eles? Perseguição a jornalistas que não noticiem o ufanismo que agrada ao poder. Armamento da população, com incentivo ao enfrentamento dos “outros”, aqueles que não rezam a mesma cartilha. Ironias, chistes e humor baixo em relação a minorias e a chefes de Estado que ousem se interessar pelo futuro da Amazônia.

Quando, na verdade, o que a comunidade internacional espera é que o Brasil cumpra as leis que produziu e que já foram consideradas exemplo para o restante do mundo e honre os tratados internacionais, que foram firmados e ratificados e, portanto, integram o ordenamento jurídico pátrio.

Não há ameaça alguma à “soberania” brasileira, mas exigência de observância de uma das expressões da soberania estatal, aquela produzida pelo Parlamento.

Tudo isso deveria merecer reflexão, atenção e ação por parte do governo e por parte do empresariado lúcido. Um trabalho firme, decidido e sério para afastar os fantasmas que rondam o Brasil, sem regabofes, sem bajulação, sem servilismo. O Brasil precisa de trabalho e não de convescote.

A gente não acredita que a história se repita. Infelizmente, ela se repete. Mas não segue a espiral hegeliana da contínua ascensão moral. Ela retrocede e faz indagar o que foi que aconteceu com o brio nacional.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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