‘A gente consegue sentar quando para tomar meu café?’; ouça servidor da Assembleia Legislativa de Pernambuco pedindo propina, segundo a PF

‘A gente consegue sentar quando para tomar meu café?’; ouça servidor da Assembleia Legislativa de Pernambuco pedindo propina, segundo a PF

Investigadores da Operação Coffe Break apontam que João Pedro Ferreira Belo Daumas, servidor comissionado da Alepe, solicitou propina - falando em 'convite para tomar um café' - após atuar em pagamento de R$ 50 mil a empresa de Sebastião Figueiroa

Pepita Ortega

30 de julho de 2020 | 14h44

“Amigo boa tarde, tudo certinho? Oh esse aí da Racs, a gente consegue sentar quando? E o papel está correndo lá também… A gente consegue sentar quando para tomar meu café?”. De acordo com a Polícia Federal, foi dessa maneira que João Pedro Ferreira Belo Daumas, servidor comissionado da Assembleia Legislativa de Pernambuco, solicitou propina a Sebastião Figueiroa, apontado como controlador de empresas que receberam quase R$ 40 milhões da Casa Legislativa em dez anos.

O empresário respondeu: “Quarta-feira, João. Vê um horário aí quarta-feira viu, que a gente senta”. Após a concordância de Figueroa, João Pedro seguiu: “O horário que ficar melhor pra tu, visse”. No entanto, o encontro não chegou a acontecer – um dia antes do mesmo o empresário foi alvo da Polícia Federal, em ação aberta em junho.

Daumas, por sua vez, foi o principal alvo da Operação ‘Coffee Break’, aberta na manhã desta quinta, 30, para cumprir 10 mandados de busca e apreensão, inclusive na Assembleia Legislativa de Pernambuco. Na casa, os agentes vasculharam a Superintendência Geral, a Superintendência de Planejamento e Gestão (Suplag), a comissão de licitação e a sala dos pregoeiros.

Além das ordens de busca, a 13ª Vara Federal do Recife que ordenou a abertura da ofensiva, determinou ainda o afastamento temporário de Dumas. Ele era membro da comissão de pregoeiros e lotado na Superintendência de Planejamento e Gestão da Casa, sendo responsável pelos pagamentos dos fornecedores.

Dumas e Figueroa foram indiciados pela prática dos crimes de corrupção, advocacia administrativa e dispensa indevida de licitação, informou a PF.

A ‘Coffee Break’ é um desdobramento da operação que mirou Figueroa, a La Casa de Papel. Aberta em junho para para investigar a contratação, sem licitação, por prefeituras pernambucanas, de empresa para fornecimento de materiais médico-hospitalares, a operação cumpriu 35 mandados de busca e apreensão. Os valores envolvidos nos contratos sob investigação da ‘La Casa de Papel’ somam quase R$ 9 milhões.

Segundo a PF, durante as buscas foram identificados ‘fortes vínculos’ da orcrim com a Assembleia Legislativa de Pernambuco, como cartões de abastecimento de viaturas da casa encontrados em poder de membros do grupo.

Com relação à Figueroa, apontado como líder da organização criminosa investigada na ‘La Casa de Papel’, os investigadores indicam que os familiares do empresário são comissionados na Alepe (companheira, cunhados, sobrinhos).

Além disso, segundo a PF, o celular do empresário teria revelado ‘proximidade’ com servidores da Alepe envolvidos na parte administrativa, em especial João Pedro e ainda Maria do Socorro Christiane Vasconcelos Pontua, superintendente-geral da casa.

A Polícia Federal indica que as mensagens entre João Pedro e Figueroa se deram até mesmo antes da assinatura do contrato com a companhia controlada pelo empresário. A corporação aponta ainda que o servidor da Alepe ainda prestado contas a Figueroa sobre o que teria feito para agilizar os contratos.

Em um dos diálogos, João Pedro indica que o pagamento da empresa de Figueroa, a Racs Comércio de Informática, foi para o banco e em seguida envia mensagem com o valor R$ 54.511,93. Segundo a PF, o servidor também ‘patrocinou interesse’ do empresário ao determinar adesão integral a ata de registro de preço de papel.

A corporação aponta ainda que foi em razão de sua atuação no pagamento da Racs que João Pedro pediu a propina a Figueroa.

Com relação à Maria do Socorro Christiane, a PF aponta uma menção a ‘Cris’ nas conversas entre João Pedro e Figueroa, além do encaminhamento ao empresário, por um contato de nome ‘Cristiane Assembleia’, do endereço da residência da servidora. Segundo a PF, pouco tempo depois, o empresário repassou o mesmo endereço a um motoqueiro.

COM A PALAVRA, OS INVESTIGADOS

A reportagem busca contato com os investigados. O espaço está aberto para manifestações.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: