A força de transformação dos investimentos de impacto em tempos de pandemia

A força de transformação dos investimentos de impacto em tempos de pandemia

Haroldo Rodrigues Jr.*

09 de maio de 2020 | 06h00

Haroldo Rodrigues Jr. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em tempos de pandemia, a importância da doação e da filantropia é cada vez mais perceptível em determinados territórios do Brasil. É um período de rara transcendência – em que a desigualdade social brasileira está desnudada – e fundamental para firmar o papel das empresas de gerar impacto positivo para além das campanhas e ações de marketing. Até porque, em um momento de grande turbulência, todas as instituições estão tendo sua validade e legitimidade reexaminadas. Está em jogo o comprometimento do setor empresarial com a transformação da sociedade. 

No entanto, não basta que se foque em filantropia e  doações, inquestionavelmente importantes para resolver questões emergenciais como falta de alimentos e de água, por exemplo: é urgente que os empresários e investidores também dêem suporte para negócios que ajudem na preparação para o que vem pela frente. 

Nesse sentido, é preciso trazer luz para os investimentos de impacto no Brasil, que proporcionam retorno financeiro aliado a impacto social, ajudando a resolver grandes desafios do nosso tempo com relação a pilares importantes da sociedade, como acesso a saúde, educação e trabalho, promovendo a tão falada economia do bem-estar. Para ilustrar, um belo exemplo é o da Magnamed, empresa de impacto focada em equipamentos médicos de baixo custo cuja produção de ventiladores pulmonares deve salvar muitas vidas durante a pandemia. 

Há, ainda, um potencial enorme para esses negócios de impacto serem verdadeiros catalisadores para o desenvolvimento e aplicação de tecnologia a serviço do bem-estar público, conectando empreendedores, profissionais autônomos e artesãos ao mercado, facilitando o acesso a microcrédito e garantindo fluxo de caixa, por exemplo. Essas tecnologias sociais podem vir a executar um papel fundamental na cura das dores da pandemia nas regiões e nos negócios que tendem a mais sofrer com elas. 

Assim como no caso da filantropia, dados da Pipe Social de 2019 cristalizam que o investimento privado em negócios de impacto está centralizado no Sudeste e que a distribuição para outros estados e regiões é inexpressiva.  Com um inimigo em comum que deve ser enfrentado, sobretudo, com confiança e solidariedade, pergunto: o que o vírus está ensinando nestes quase dois meses de isolamento, no Nordeste, por exemplo? 

É lógico compreender que o momento só aguça que as dores da quarentena são exatamente aquelas nunca olhadas ao longo do tempo: o ser humano e a sua capacidade de produção. Em outras palavras, o nordestino e a sua terra. O momento é, portanto, também muito oportuno para diversificar os investimentos privados, inserindo-os na agenda de desenvolvimento do país como um todo e descentralizando a riqueza. 

Esse tempo é um ótimo mestre, há que se ter bons alunos. Será surreal se, ao cabo dessa jornada, se aprenda mais ainda a tomar posições extremas, ou que os bons sairão melhores, os maus piores, os fracos mais fracos e os fortes mais fortes. Por isso, urge uma agenda de investimentos privados descentralizada, ganhando consciência social, na qual o fomento aos negócios locais e da base da pirâmide é a nova ordem emergente, que vem para quebrar paradigmas.

*Haroldo Rodrigues Jr., sócio-fundador da in3citi

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: