A ferida ecológica

A ferida ecológica

Marcos Abreu Torres*

14 de março de 2021 | 06h00

Em Uma dificuldade no caminho da Psicanálise (1917), Freud argumenta que ao longo da história a humanidade foi acometida por três grandes acontecimentos que feriram o orgulho do ser humano, fazendo-os descer alguns degraus na sua vaidosa autoestima.

Estes eventos foram chamados pelo pai da psicanálise de as três feridas narcísicas, e em comum, têm o fato de terem sido desencadeados pelo avanço das pesquisas científicas.

O primeiro golpe foi dado por Copérnico, quando afirmou que a Terra não era o centro do Universo e que o homem, portanto, não era o senhor do mundo. Esta foi a ferida cosmológica.

O segundo foi desferido por Darwin com sua teoria da evolução, ao demonstrar que não fomos criados à imagem e semelhança de Deus. O homem não é um ser diferente ou superior aos animais, sendo mero resultado de um processo de milhares de anos de evolução da espécie. Foi a ferida biológica.

E o terceiro golpe foi dado (por ironia narcísica!) pelo próprio Freud, ao argumentar que não somos senhores de nós mesmos, isto é, que a condição humana é muito mais complexa do que a nossa consciência permite perceber. Há um lado inconsciente que nos condena a repetir hábitos e decisões indesejados. A ferida psicológica.

Freud morreu em 1939, portanto não viveu para prever a quarta ferida.

Nestes tempos de pandemia, poder-se-ia supor que a covid-19 seria este novo golpe na arrogância humana. Mas, por mais tragédias e limitações que o vírus tenha imposto até agora, o fato é que a humanidade, mais cedo ou mais tarde, vai superá-lo. O aparente sucesso da vacina, desenvolvida em tempo recorde, vem, na verdade, jogar luzes sobre a vaidade humana. É possível que os cientistas sejam agraciados com um Nobel de Medicina, ou até da Paz, e em breve a humanidade sairá às ruas para celebrar mais uma “vitória da ciência” e tudo voltará ao velho normal.

O candidato mais forte para protagonizar a quarta ferida narcísica é a resposta que a natureza já está nos dando: a ferida ecológica.

Marcos Abreu Torres
Foto: Divulgação

As mudanças climáticas vêm abalando os pilares mais robustos da autoconfiança humana. A ciência ainda não desenvolveu mecanismos para neutralizar o efeito estufa; o mercado e os governos não conseguem se livrar das maiores fontes emissoras de gases que alteram o clima da Terra.

A perda da biodiversidade vem mostrando que somos incapazes de frear nossos desejos e de ter empatia com as demais espécies. Cada habitat destruído e cada espécie extinta são provas de que não conseguimos fazer as pazes com a natureza.

A poluição causada pelas atividades humanas mata milhões de seres vivos e torna o ambiente inservível para os processos básicos da vida. A exploração de recursos naturais até o esgotamento impede o planeta de se recuperar, interrompendo ciclos e regimes naturais.

Como consequência desses processos predatórios, o ser humano está colocando em risco a sua própria sobrevivência. O futuro poderá ser de solidão da espécie humana em uma simbiose melancólica com um planeta estéril ou, num cenário mais apocalíptico, de extinção da nossa espécie. A Terra não precisa de nós, o planeta se regenerará e seguirá seu rumo.

Foi a ciência que, ao derrubar alguns mitos, gerou as feridas do passado. Desta vez, é a fé na própria ciência que, ironicamente, abrirá a nova chaga. O avanço humano dos últimos séculos coincidiu com a devastação ecológica. No entanto, ainda acreditamos ser capazes de nos salvar investindo em mais ciência e mais tecnologia, sem perceber que esses investimentos têm consumido mais do que o protegido. Nos refugiamos na ilusão de que a ciência nos permitirá refazer o mundo, mas somos incapazes de aprender com as experiências.

Por falar em fé, enquanto a Igreja Católica foi derrotada nas feridas narcísicas anteriores, desta vez, o Vaticano não poderá ser acusado: em 2019, o Papa Francisco lançou a encíclica Nossa Mãe Terra: Uma leitura cristã do desafio do ambiente, em uma clara demonstração de apoio a mudanças de rumo.

A prevenção foi ignorada pela soberba, afinal, o futuro parece distante e só quem viver verá.

*Marcos Abreu Torres – Advogado. Mestre em Constituição e Sociedade (IDP). Autor do livro Conflito de Normas Ambientais na Federação. Proprietário do blog sosbrasil.net.

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