A extinção das empresas que só pensam no lucro

A extinção das empresas que só pensam no lucro

Daniel Lança*

05 de janeiro de 2022 | 05h00

Daniel Lança. FOTO: INAC/DIVULGAÇÃO

Num futuro muito próximo, as empresas que só pensam no lucro vão desaparecer do mercado. Obviamente, isso não significa dizer que as empresas não lucrativas irão prosperar. Todavia, aquelas organizações que não enxergam outras variáveis tão importantes quanto o lucro certamente não se sustentarão a longo prazo. Um aparente paradoxo que está causando uma imensa revolução nos negócios. Explico em três atos.

Para começar, a declaração inicial deste texto não é fruto da opinião de um millennial ingenuamente otimista. Recente pesquisa desenvolvida pelo professor Raj Sisodia, da prestigiosa Universidade de Harvard, mostrou como as empresas que não pensam somente no lucro têm crescimento exponencial (portanto, lucram mais) em comparação com aquelas organizações que só pensam no retorno financeiro. Cunhou-se, então, o termo capitalismo consciente para designar tais negócios em contraponto ao capitalismo selvagem, irresponsavelmente antiético e monofocado na distribuição de dividendos.

Conceitualmente, as empresas que não pensam somente no lucro podem ser entendidas como aquelas organizações que agregam valor ao relacionamento com as suas diversas partes interessadas (stakeholders), e não somente aos acionistas (shareholders), a quem cabe desfrutar dos dividendos. Tais organizações compreendem que, para ter vida longa, precisam cuidar da interação com colaboradores, fornecedores, clientes, comunidade e
meio ambiente, em uma relação que gera valor de maneira equânime e transparente. Nenhuma empresa sobreviverá pensando apenas no curto prazo ou no seu próprio umbigo; será preciso criar uma cultura de colaboração e empatia com as diversas partes interessadas – ou crescemos todos juntos ou não há crescimento sustentável.

Três motivos me parecem avassaladores para cravar a extinção das empresas que só pensam no lucro.

O primeiro deles é pragmático: nos dias atuais, o próprio mercado trata de afastar parceiros de negócios com os quais não confia. Adam Smith ensinava que a base do capitalismo é a confiança. A confiança é o sustentáculo do sistema capitalista no mundo democrático. Em tempos de capitalismo consciente, ninguém quer associar marca e reputação com quem adere ao capitalismo selvagem; a interação com as diversas partes interessadas demanda relacionamento e confiança. Sem estas, você é carta fora do baralho num ambiente de troca cada vez mais conectado.

Não à toa, organizações de todo o globo utilizam com freqüência ferramentas de due diligence, que buscam conhecer com quem se fazem negócios, buscando checar antecedentes e uma infinidade de outras informações de deixar o interlocutor estupefato. Eis o dilema da sociedade da transparência absoluta em tempos de dados abertos e sistemas interconectados.

O segundo motivo é a chegada de um novo mercado consumidor cada vez mais consciente. Interessante pesquisa feita no Brasil mostra que 56% dos brasileiros compram com base no posicionamento socioambiental da marca, não apenas no custo benefício do produto ofertado. Quando o recorte é realizado com as gerações Y e Z, essa fatia corresponde a 90% dos entrevistados. Nesses casos, ambos os públicos estão dispostos a pagar até 25% mais caro para comprarem o mesmo produto das marcas com impacto ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança).

Um exemplo simples e didático vem aqui de casa. Casado com uma representante da geração Z, optamos já há algum tempo por não comprar mais roupas daquelas lojas de departamento que todos sabem ainda ter denúncias de trabalha análogo à escravidão. Ou de marcas de chocolates que são suspeitas de utilização de mão de obra infantil na colheita de cacau.

Os números apontam como essa é uma tendência a ser levada a sério: as gerações Y e Z, hoje em torno de 70 milhões de pessoas, representam 46% da população economicamente ativa (PEA) no Brasil. Em dez anos, seremos 70% da PEA. Vale dizer, essa geração, consumidora caracteristicamente mais consciente, dará as cartas para moldar um novo capitalismo.

Não bastasse serem consumidores conscientes, as gerações Y e Z também é mão de obra engajada – esse é o terceiro motivo. Diferentemente das gerações anteriores, estabilidade e mesmo o salário em si não são valores tão relevantes quanto a busca de propósito no mercado de trabalho. Uma boa forma de explicar tal postura vem da Pirâmide de Maslow, que estuda as diversas hierarquias das necessidades humanas.

Se, de maneira geral, a classe média ocidental já superou as necessidades mais básicas, como a fisiológica, as novas gerações buscam aquelas mais complexas, como autoestima e autorrealização plena, inclusive e especialmente no mercado de trabalho. De tal forma, será muito difícil, para as organizações do futuro, absorver e reter mão de obra qualificada das novas gerações sem um posicionamento consciente e engajado com impacto social, ambiental e de governança.

Dizer que as empresas que só pensam no lucro serão extintas num futuro próximo é tanto um prognóstico quanto um manifesto. Não há dúvidas que precisaremos ser construtores – não apenas espectadores – do futuro que almejamos. Não é utopia acreditar em organizações com visão holística: que fortaleçam a sustentabilidade, valorizem seus colaboradores e acreditem na diversidade e no poder da inovação para melhorar a qualidade de vida as pessoas. Para isso, será preciso criar um capitalismo que efetivamente desinvista e desestimule negócios antiéticos com amplo engajamento coletivo. Parafraseando um poeta das novas gerações, para quem tem pensamento forte, o impossível é só questão de opinião.

*Daniel Lança é Head de ESG do Instituto Inhotim, sócio da SG Compliance e professor convidado da Fundação Dom Cabral (FDC). É Mestre em Ciências Jurídico-Políticas pela Universidade de Lisboa e especialista em Gestão de Riscos pela Universidade Harvard

Este texto reflete única e exclusivamente a opinião do(a) autor(a) e não representa a visão do Instituto Não Aceito Corrupção

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