A extinção da moeda

A extinção da moeda

José Renato Nalini*

31 de maio de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

A pandemia acelerou de forma expressiva a utilização dos benefícios eletrônicos e virtualizou a vida de milhões. Inclusive no Brasil, cujo Estado não investiu o quão seria necessário em pesquisa e está atrasado na implementação da tecnologia do 5G.

Independentemente disso, o mercado, sempre atento, procurou adaptar-se aos novos tempos. Multiplicou as formas de pagamento, intensificando uso do cartão, nem sempre físico, porém admitindo também a satisfação dos débitos por aproximação. Graças a um sistema bancário que sempre foi pioneiro, viu a adesão do usuário prestigiar as modernidades e entregar-se às novidades.

Falta agora que o governo cumpra a sua parte. É urgente a implantação do sistema 5G, que alavancará tudo o que pode fazer do Brasil a grande potência que, sempre sonhamos, ele poderia ser um dia. Mostra-se essencial que tenham a palavra os que conhecem as modernas tecnologias e que o governo seu limite a ser um observador, para controlar de maneira restrita aquilo que ainda não domina, mas que é fundamental para a recuperação d décadas perdidas. também para este tema é válida a observação comum de que muito ajuda o governo que não atrapalha.

O país já possui mais de 300 milhões de mobiles, o que significa a posse de vários deles por um único usuário. Pode-se fazer quase tudo mediante o uso de um celular. As compras e o e-comerce tiveram notável crescimento nestes 2 últimos anos, o que evidencia a vontade do consumidor de poupar tempo. A maior vantagem da utilização dos meios virtuais para a satisfação de obrigações sempre crescentes, a medida em que o convívio se torna mais sofisticado e complexo.

As modalidades de pagamento são infinitas. Pode se pagar até com a destinação de pontos acumulados em agências de viagem, empresas de aviação e outros, por exemplo. Os bancos tradicionais estão se adaptando aos novos tempos. Porém é nítida a redução de agências e a urgência em permitir que todas essas portas opcionais sejam acessadas pelos consumidores. Esta é a grande lição: o cliente sempre tem razão.

Como seria bom poder afirmar que a cidadania, em seu relacionamento com as múltiplas modalidades pelas quais o Estado se exterioriza, também merecesse tal atendimento.

De maneira geral, o Estado brasileiro ainda está imerso sob a inundação burocrática irritante, que penaliza o indivíduo e faz com que ele tenha a pior impressão quanto a qualquer governo.

O contribuinte, sufocado pela maior carga tributária do planeta, não tem atendimento digno na imensa maioria das obrigações estatais. O fisco sabe espoliar, mas impõe sobre aquele que suporta o peso crescente de um Estado jurássico e ineficiente, obrigações acessórias que subtraem tempo e dinheiro a quem já não dispõe de ambos.

A peste escancarou a miséria, fenômeno nunca debelado, senão agravado nos últimos anos. Milhões de brasileiros são invisíveis, não pertencem ao mundo legal, são desconhecidos pelo aparato oficial. A concessão de auxílio emergencial constatou que legiões são desbancarizadas. Seria a oportunidade de ouro para incluir essa sub-cidadania ao rol daqueles que podem usufruir, o mínimo que seja, das modernidades tecnológicas.

Enquanto o mundo inteiro constrói cidades inteligentes, providas de todo o aparato necessário ao ingresso na era contemporânea, o Brasil destrói seus biomas, fala em retorno ao voto escrito e cria mais uma cédula de papel moeda, a de duzentos reais.

Inveja da Estônia que se exibe ao mundo como a nação mais eletrônica do planeta, a Finlândia que elabora a sua Constituição mediante consulta pela internet. Já o Brasil obscurantista procura procrastinar a implementação 5G, invocando delírios ideológicos. Não nos enganemos, todavia. O curso da história prossegue, apesar da ignorância. Não se diga que o Brasil sente falta de indivíduos que experimentaram o gosto da contemporaneidade e querem mais. Sabem que têm direito a querer mais. Vão exigir mais. Conseguirão mais.

Argumentar-se com o atraso cultural impeditivo de utilização dos meios disponíveis de satisfação das obrigações financeiras é falácia desmentida pela coleta empírica dos dados. Qualquer criança sabe manusear um celular e extrair dele o acesso às infinitas potencialidades propiciadas pelas mágicas tecnológicas do século 21. Precisamos delas para facilitar nossa rotina e escapar do excessivo fardo burocrático estatal.

A esperança para o Brasil é que o mercado supra as deficiências governamentais e impunha padrões de qualidade passíveis de aproximação dos brasileiros com os parâmetros internacionais de países civilizados.

Nesse rumo inexorável, pode ser que a moeda continue a existir por um tempo , mas não se conseguirá impedir a sua marcha como ao cemitério arqueológico destinado às coisas que um dia já serviram, mas que hoje não têm mais serventia.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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