A explosão no Porto de Beirute e a sobrevivência no Líbano

A explosão no Porto de Beirute e a sobrevivência no Líbano

Joaquim C. Racy*

10 de agosto de 2020 | 09h00

Joaquim C. Racy. FOTO: DIVULGAÇÃO

Não fosse a explosão do Porto de Beirute uma tragédia em si, as condições a que estava submetido o Líbano, seja do ponto de vista econômico, dada a crise financeira expressa na desvalorização de 80% da libra libanesa desde finais do ano passado, seja do ponto de vista sanitário com a pandemia do novo coronavírus, já colocavam o país sob risco de uma catástrofe.

Em grande parte, essa situação pode ser atribuída à política engendrada naquela sociedade, cuja estrutura assentada em relações entre grupos assim denominados sectários se revela anacrônica desde sua origem, geraria efeitos absolutamente distorcidos que viriam a promover a terrível e sangrenta guerra civil vivida pelo Líbano de 1975 a 1990.

Dada a natureza dos conflitos, deve-se destacar, envolvendo interesses externos, o fim daquela guerra parece não ter sido suficiente para a pacificação do país de tal modo que as diferenças entre os grupos políticos do país não foram suficientes para evitar a guerra que se desenvolveria em 2006.

A economia libanesa, espelhando esse cenário, estruturalmente se enfraquece a cada novo choque, como no recente e trágico caso. Exigindo cada vez mais empenho do governo no sentido de superar cada uma dessas crises e premido pelas disputas entre os diferentes grupos de poder, o Estado libanês começaria invariavelmente a dar sinais de incapacidade para fazer frente aos interesses da sociedade.

Assim, se antes deste fatídico evento grande parcela daquela sociedade, composta por cidadãos libaneses acrescida de cidadãos palestinos e sírios, que por conta de eventos externos transformariam o país num dos maiores receptores de refugiados do mundo, já não se via atendida em suas necessidades básicas, fica agora ainda mais debilitada. Este último grupo, de refugiados, em situação de inferioridade relativamente aos cidadãos libaneses, passa então a ficar em posição de extrema vulnerabilidade.

A comunidade internacional tem, por conta da importância do pequeno país na história da região e a despeito da situação que o envolve no contexto político regional, feito esforços no sentido de promover sua recuperação. Mas, pelas razões brevemente apontadas anteriormente, mesmo que isso não venha acontecendo, no atual momento, a ajuda é mais do que necessária por ter caráter humanitário e emergencial.

Nesse sentido, se praticamente 80% das importações de mercadorias fundamentais ao funcionamento da economia libanesa e à subsistência do povo libanês dependem das operações do Porto de Beirute, cabe à comunidade internacional, de maneira semelhante ao que tem ocorrido em outros grandes desastres no mundo, montar um “esquema de guerra” com o objetivo de prover os recursos necessários à sobrevivência do Líbano, sob pena de se ver o triste fim dessa nação, com desdobramentos que se ampliarão e se alastrarão, fazendo-se sentir em toda a região.

*Joaquim C. Racy é professor do curso de Economia e do Programa de Mestrado Profissional em Economia e Mercados da Universidade Presbiteriana Mackenzie

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