A expectativa das universidades

A expectativa das universidades

Pedro Flexa Ribeiro*

12 de dezembro de 2019 | 15h38

Pedro Flexa Ribeiro. FOTO: DIVULGAÇÃO

Está em curso a discussão sobre a Reforma do Ensino Médio. Depois de décadas de excessos, o currículo está inchado, saturado de conteúdos cuja pertinência na Educação Básica é muito discutível. Predomina hoje um cenário monocromático, com currículos padronizados.

As práticas de sala de aula decorrem também das expectativas da Universidade. Os critérios estabelecidos como condição para o ingresso na graduação têm forte influência sobre o currículo e no que mais se passa nas escolas. Muitas distorções advêm do fato de a Educação Básica ser concebida em virtude do nível superior. Ressalvada a formação técnica, convém sempre proteger o Ensino Médio da sobrecarga de exigências próprias das graduações. Assim é importante que o conjunto de todos os que se relacionam e influenciam a terminalidade da Educação Básica estejam atentos à necessidade de se preservar esse enquadre.

Para que a diversificação curricular avance, é necessário ficar claro como se dará o acesso ao nível superior. Isso convocará além das avaliações do INEP, também as próprias Universidades. Afinal, são elas que, por suas expectativas, pautam muito do que se passa em todas as escolas do país. É desejável que os processos de ingresso sejam compostos por etapas sucessivas: uma primeira fase, mais genérica (o ENEM?), seguida de uma segunda etapa. No entanto, no que concerne às provas ditas “específicas”, convém ter claro discernimento de qual deve ser, a cada caso, a sua função. É pertinente que o domínio de “competências específicas” seja exigido como condição para ingresso em cursos como Desenho, Arquitetura, Música, Dança e Educação Física.

No que se refere a carreiras como Direito, Engenharia, Medicina, Filosofia, Economia ou Psicologia, não convém que a Universidade condicione o ingresso do candidato à demonstração prematura de conhecimentos ou competências cujo domínio deve ser sua atribuição desenvolver ao longo da graduação.

Afinal, o que de fato espera-se que essas questões avaliem? Que tipo de conhecimento dito “específico” seria pré-condição para o ingresso em um curso de Direito? Que tipo de competência – ou habilidade – específica espera-se que o candidato à Medicina demonstre? O que é razoável que se espere do Ensino Médio? Mesmo considerando a existência de itinerários formativos, convém ao avaliador externo ponderar que é da Educação Básica que se trata.

Não é papel da escola iniciar desde o Ensino Médio a formação do futuro médico ou engenheiro. Essa atribuição e responsabilidade deve ser da Universidade e do ciclo básico que cada graduação venha a constituir. A escolha por estabelecer esse tipo de exigência, como critério de entrada, seria um equívoco que sobrecarregaria tanto para a escola como ao estudante com demandas prematuras, trazendo mais distorções do que contribuições.

No fundo, muitos dos atuais conteúdos são desnecessários, não cabem no núcleo comum, tampouco na parte diversificada do currículo. Para que o excesso de conteúdo do Ensino Médio venha a ter algum alívio, certos pontos dos programas devem ser redirecionados para as graduações. Por isso, a recomendação das escolas de Educação Básica é de que não faz sentido sobrecarregar o processo de ingresso com a antecipação de exigências prematuras e descabidas.

O que deve ser avaliado é a formação geral do estudante. Esse deve ser o foco do Ensino Médio. Nesse sentido, o êxito dessa reforma curricular depende também, em larga medida, da Universidade. É importante que cada instituição de ensino superior tenha consciência da influência determinante que exerce sobre a Educação Básica. Cabe à Universidade conceber para esses concursos seletivos critérios que não tragam consequências disfuncionais para o currículo, deixando as escolas livres para inovarem e conceberem, cada uma delas, seus itinerários formativos. Quanto mais diversificado vier a ser o cenário do Ensino Médio, maiores serão as opções ao alcance dos estudantes. Mais bem atendidos estarão os alunos, suas famílias, a sociedade em geral e, sobretudo, a escolaridade proporcionada às futuras gerações.

*Pedro Flexa Ribeiro é diretor da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep)