A euforia do poder

A euforia do poder

Angel Machado*

26 de agosto de 2020 | 07h15

Angel Machado. Foto: Divulgação

A autoridade provisória dos homens blindados pelo poder não costuma perpetuar-se em democracia. Se alguns membros da sociedade apartidários e de outros organismos políticos combaterem a normativa de alienação dos direitos adquiridos na Constituição, talvez, consigamos reagir à incompletude de um governo algoz. Pagamos caro pela complacência de quem está em estado de euforia no poder e desconhece o exercício de um cargo público, sua função e relevância.  

Onde estávamos quando a Cultura começou a ser sufocada? Recentemente ouvi um estudante negro dizer: “pertenço à classe bem-aventurada dos que fazem faculdade pública no Brasil” – um jovem e futuro engenheiro que sintetizou nessa frase a impressão de que estamos todos sentados sobre a História, e muitos perplexos diante do abismo social da desigualdade.

Se tiveres Educação e Cultura a coragem deverá interpelar as dificuldades. Resistir passará a ser um verbo transitivo direto. Essas questões serão complexas até o dia em que deixarmos de lhes atribuir o rótulo de insolúveis. Estou a falar de um futuro mais digno e coerente para milhares de jovens que hão-de nascer no Brasil.

O que estamos vivendo é um pesadelo de infância, e a indignação de não saber comportar-me com a memória, arranca-me a paz que um dia senti quando era criança. Lembro que numa manhã de inverno, com temperatura baixa, a primeira aula do dia era de Português. A professora vivia com um brilho nos olhos, talvez, por nos ter confessado que ser professora era um sonho de infância.

Naquele dia em especial, ela apresentou-nos o livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, cuja história cativou-me de tal maneira que desejei ser jornalista – claro, influenciada pela mulher que tinha o sonho de ensinar e de fazê-lo como uma profecia, construindo criticidade e autonomia de pensamentos em seus alunos, ainda crédulos de que era através da cultura, do conhecimento e, principalmente, do diálogo que seria possível mudar uma nação.    

Numa escola pública do Paraná, a minha professora começava o ditado: “O mundo está cheio de pessoas analfabetas que estudaram muito, viajaram, contribuíram com o turismo, fizeram suas festas de fim de ano, jogaram na lotaria, torceram por um time de futebol, tiveram uma religião, acreditaram em coisas que os outros diziam, colheram flores na primavera, esnobaram a truculência de um vocabulário erudito, fizeram planos e fingiram. Gente. Gente como eu, apenas. Gente como nós. Gente, apenas, sendo gente” – fragmento do texto “Gente Brasileira” da autora Eurides Genuíno, a minha professora inesquecível.

Mostrou-nos, também, Euclides da Cunha, brasileiro, fluminense de Cantagalo, um homem de fôlego, genuíno e voraz, que havia retratado uma guerra, vivendo-a. Os Sertões é uma obra indispensável, atual e necessária, porque retratou em 1902 a Guerra de Canudos e retrata, também, em 2020 a nossa guerra. Recupero um fragmento do livro publicado e considerado o primeiro livro-reportagem brasileiro: “Não temos unidade de raça. Não a teremos, talvez, nunca. Predestinamo-nos à formação de uma raça histórica em futuro remoto, se o permitir dilatado tempo de vida nacional autônoma. Invertemos, sob este aspecto, a ordem natural dos fatos. A nossa evolução biológica reclama a garantia da evolução social. Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos. A afirmativa é segura”.

Um país sem Cultura desfaz-se com gente truculenta, mas a perenidade da nossa existência está garantida pelas lições da História, onde as cores justificam a comunhão de um destino comum.

*Angel Machado é jornalista e escritora 

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