A ética espacial e os astronautas da fome

A ética espacial e os astronautas da fome

Fernando Rizzolo*

28 de julho de 2021 | 09h10

Fernando Rizzolo. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Na história da humanidade, podemos incluir diversos conceitos que passam pelo bom senso do ponto de vista ético. Assim foi através da filosofia, das religiões, das lutas pelo poder, mas algo em especial, independente dos fatores advindos dessas conceituações, esbarra numa esfera em que o julgamento pessoal deve ser levado a uma reflexão humana do ponto de vista pragmático, sem paixões ou influências políticas.

Longe de mim ser um crítico do capitalismo em si, até porque o capitalismo ou o liberalismo tem sido a saída para os regimes totalitários, de tal sorte que não me atenho neste momento a apregoar uma cruzada contra os ricos ou bilionários. Sabemos que no regime capitalista cada um faz o que quer com seu dinheiro, mas isso também ocorre em qualquer regime político do planeta. No entanto, a questão crítica, e eu poderia até dizer a questão que aborda os conceitos judaicos de ética e filosóficos acadêmicos, é que o mundo caminha para uma pandemia que parece sem fim, uma desestabilização dos países mais pobres, que os leva em direção à miséria, sendo, portanto, pertinente uma análise, mesmo que perfunctória, do que está ocorrendo neste cenário mundial.

No Brasil da pobreza, tive notícia, por exemplo, de que recentemente em Cuiabá, capital do estado de Mato Grosso, milhares de desempregados, doentes, órfãos, sem teto e desvalidos se juntaram numa verdadeira luta corporal em frente a um açougue para conseguir o que chamam de “ossinho”, um pequeno osso com mínimos filamentos de carne que serve para, quando cozinhado no carvão, ser acrescentado, uma vez por mês, ao pouco feijão que existe para alimentar uma família inteira.

Para não me ater apenas ao Brasil, depois de mais de um ano de pandemia, milhares de pessoas no mundo não têm sequer o direito a alimentação, saúde pública e dignidade.

Diante desse cenário, o bilionário americano Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo, dono de uma fortuna estimada em 188 bilhões de dólares, decolou para fazer “turismo no espaço”, numa época em que cerca de 780 milhões de pessoas que vivem com menos de US$1,90 por dia buscam algum tipo de alimento para não passarem fome na Terra.

E alguém poderá dizer: “mas o dinheiro é dele”. Sim! Contudo, existe algo que falta ser cultivado na mente dos bilionários, que é a ética capitalista. Com efeito, até para ser um grande capitalista é necessário ter a consciência de que não é correto gastar ostensivamente enquanto milhões de pessoas foram jogadas nas valas da fome e da pobreza extrema atualmente. Enfim, “o dinheiro é dele”, mas a ética é da humanidade.

Talvez, do espaço, sem a gravidade e com a leveza dos corpos, bilionários vejam um mundo melhor, mas acredito que, ao chegarem, vão se deparar, mais dia, menos dia, com o peso na consciência. Aliás, consciência não se compra no mercado. Assim sendo, fecha-se os olhos e decola-se, pois isso, na realidade, é um problema dos astronautas da fome.

*Fernando Rizzolo é advogado, jornalista, mestre em Direitos Fundamentais

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