A estreia de Carlos Alberto na Vila do Santos

A estreia de Carlos Alberto na Vila do Santos

Fausto Macedo

25 Outubro 2016 | 14h05

Carlos Alberto Torres no início da carreira, no Santos. Foto: Reprodução/Facebook

Carlos Alberto Torres no início da carreira, no Santos. Foto: Reprodução/Facebook

Naquela tarde de domingo fazia sol em Santos e todos vivíamos a expectativa da estreia na Vila do novo lateral direito do time, um certo Carlos Alberto, revelado na base do Fluminense. Ele trazia na bagagem grandes exibições com a camisa tricolor, inclusive o troféu de campeão carioca de 1964. Lembro-me que a Revista do Esporte, a Gazeta Esportiva e a Gazeta Esportiva Ilustrada, que nos enchiam de informações em primeira mão, enalteciam as atuações do lateral.

Eu estava perto de completar dez anos. Um dos meus irmãos, Alberto, um pouco mais velho, me acompanhava. A Vila estava cheia. Sentamos atrás do gol do Santos no primeiro tempo. Era o dia da estreia do Carlos Alberto na Vila!

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A expectativa era imensa. O Santos havia pago por ele um valor bem alto para os padrões da época, Cr$ 200 milhões, duzentos milhões de cruzeiros.

O fato é que o Santos que encantou o mundo precisava mudar sua defesa urgentemente. Tinha atravessado um 1964 com enormes dificuldades no setor defensivo. Ismael, o lateral titular, andou falhando demais. O Santos havia perdido parte de seu prestígio, também lá fora. Apanhou do Peñarol do Uruguai e do Indepediente da Argentina. Havia sido eliminado da Libertadores. Um jornal francês chamou o Santos de ‘campeão sem glória’ depois de uma excursão capenga em Paris. Carlos Alberto veio novinho ainda, 20 para 21 anos, creio.

A primeira exibição na Vila com a camisa branca foi contra o América de São José de Rio Preto. Foi a estreia do Santos no Paulista daquele ano.

Para decepção de todos nós o Rei não estava em campo naquela tarde. Lembro-me da frustração geral nas arquibancadas quando o locutor da Vila anunciou a escalação do time, sem Pelé. Acho que Coutinho e Toninho Guerreiro formaram a dupla de ataque. Não tenho certeza.

O Santos ganhou por 3 a 1, mas não foi a estreia que todos esperavam do Carlos Alberto na Vila. Talvez ainda se adaptando ao estilo de jogo do Santos, ele não fez a partida que sonhávamos. Aí, mais para o final do jogo, muitos torcedores o vaiaram. ‘Duzentos milhões no lixo!”, lembro-me nitidamente desse momento.

Isso não abalou o grande lateral. Fez um campeonato brilhante. O Santos foi bicampeão paulista. Depois foi tri paulista (67/68/69). Muitas partidas magníficas dele, camisa 4 às costas, eu testemunhei na Vila – eu morava em São Vicente, na ocasião.

Depois, no México, em 70, o mundo o reverenciou por suas atuações soberbas na Copa. Mais que o lateral clássico, de alta categoria, que jogava de cabeça erguida, o que impressionava nele era sua personalidade forte, que só os extraordinários têm.

Naquela Copa ele pôs ordem na casa quando um atacante inglês agrediu Félix, nosso arqueiro. Ele deu o troco imediatamente, uma pancada que o britânico certamente nunca mais esqueceu. A Inglaterra ficou comportada dali em diante.

Foi o maior que eu vi na posição. Sem direito à réplica.

Vá em paz, Carlos Alberto. Obrigado por me fazer feliz na minha infância e na adolescência.

Carlos Alberto Torres no início da carreira, no Santos. Foto: Reprodução/Facebook

Carlos Alberto Torres no início da carreira, no Santos. Foto: Reprodução/Facebook

Copa de 70. Da esquerda para a direita, em pé: Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza, Félix, Clodoaldo e Marco Antônio. Agachados: Jairzinho, Gérson, Tostão, Pelé e Rivelino. Pasta:51295 - Foto: Domicio Pinheiro/Estadão

Copa de 70. Da esquerda para a direita, em pé: Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza, Félix, Clodoaldo e Marco Antônio. Agachados: Jairzinho, Gérson, Tostão, Pelé e Rivelino. Pasta:51295 – Foto: Domicio Pinheiro/Estadão

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Relato do primeiro jogo da estreia de Carlos Alberto na Vila Belmiro

Carlos Alberto Torres em 2010. Foto: Bruno Domingos/Reuters

Carlos Alberto Torres em 2010. Foto: Bruno Domingos/Reuters

Carlos Alberto Torres ergue a taça Jules Rimet na Copa de 70. Foto: Arquivo AE

Carlos Alberto Torres ergue a taça Jules Rimet na Copa de 70. Foto: Arquivo AE

Carlos Alberto Torres ergue a taça Jules Rimet na Copa de 70. Foto: Reprodução

Carlos Alberto Torres ergue a taça Jules Rimet na Copa de 70. Foto: Reprodução

Carlos Alberto Torres. - 1999 - Foto: Tasso Marcelo/AE

Carlos Alberto Torres. – 1999 – Foto: Tasso Marcelo/AE

Carlos Alberto Torres. - 1999 - Foto: Otávio Magalhães/AE

Carlos Alberto Torres. – 1999 – Foto: Otávio Magalhães/AE

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