A estratégia vaidosa

A estratégia vaidosa

Cassio Grinberg*

11 de março de 2020 | 05h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em meio ao barulho intenso dos motores na pista de Daytona Beach, em uma cena determinante do filme Ford vs. Ferrari, Carroll Shelby — o desenvolvedor de carros de competição interpretado por Matt Damon — grita a Leo Beebe, o todo-poderoso executivo de Marketing da Ford: planos mudam!

Trata-se de reflexão fundamental provocada por um filme que, como toda boa obra, extrapola as fronteiras do entretenimento e nos traz alusões — neste caso, ao ambiente corporativo: vivemos um tempo veloz, em que os planos não podem mais ser escritos à caneta e, no caso da cena acima, a esta análise pode ser somada uma situação tão delicada quanto comum: o que acontece quando duas pessoas-chave de uma mesma empresa têm objetivos diferentes?

Carroll Shelby queria desenvolver um carro perfeito, capaz de derrotar a Ferrari nas 24 horas de Le Mans. E para isso, recomendava o único piloto que julgava hábil o suficiente para a velocidade que o carro necessitava — Ken Miles (personagem de Christian Bale). O piloto, de seu lado, já tivera ele mesmo um desentendimento com o executivo de Marketing que, vendo o piloto prestes a vencer em Daytona (etapa preparatória para Le Mans), questionava o desenvolvedor se o plano não era “respeitar os limites do carro”.

Respeitar a velocidade dos concorrentes é uma péssima fórmula para vencer, mas não é apenas disso que estou falando. Entra em cena o papel da liderança: a Ford havia tentado comprar a Ferrari, que escolheu ser vendida para a Fiat. Então Henry Ford II decidira que precisava derrotar Enzo Ferrari nas pistas. A criação de um departamento de competição tem portanto uma matriz pessoal, e daí não é difícil prever o quanto a vaidade pode atrapalhar na condução da estratégia: enquanto Enzo Ferrari não sai de perto da corrida, Henry Ford II toma um helicóptero em Le Mans para ir jantar em Paris, e quando volta ao meio-dia do dia seguinte e percebe que o carro da Ferrari saiu da corrida, se encanta pela ideia do executivo de Marketing: fazer o piloto Ken Miles desacelerar para emparelhar os três carros da Ford na pista e, ao cruzar a linha de chegada juntos, gerar uma foto histórica.

O erro final da liderança, pedir que um piloto desacelerasse para fins de imagem, tem o mesmo significado do de um jogador de futebol que ficasse esperando para chutar a bola para o gol vazio: quando nossa meta é humilhar em vez de vencer, transmitimos a toda a equipe um exemplo sem significado algum. E nos demoramos para o passo seguinte, algo imperdoável em um mundo acelerado e surpreendente.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting e autor do livro Desaprenda – como se abrir para o novo pode nos levar mais longe

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