A estratégia mora nos detalhes

A estratégia mora nos detalhes

Tatiana Sereno*

17 de agosto de 2021 | 13h40

Tatiana Sereno. FOTO: DIVULGAÇÃO

Era um fim de domingo quando, navegando por vídeos sobre liderança, me deparei novamente com um trecho de uma entrevista do Simon Sinek sobre consistência. Apesar de já ter assistido algumas vezes, resolvi parar novamente para ver. E, dessa vez, sua fala me pegou ainda mais fundo. Talvez seja a pandemia, talvez fosse o domingo à noite. Mas, definitivamente, suas palavras seguiram ressoando na minha mente e na minha rotina de trabalho ao longo da semana que se seguiu.

Consistência versus intensidade. O que isso tem a ver com o que venho fazendo junto à minha equipe e aos líderes da companhia em que trabalho? O que isso tem a ver com a estratégia que aplicamos em Recursos Humanos, especialmente nesse período complexo pelo qual estamos atravessando? Simplesmente tudo. Explico.

Muitos de nós, líderes, somos obcecados por grandes estratégias, grandes marcos, grandes conquistas. Gostamos e somos cobrados por “pensar grande”, por sermos intensos em nossas entregas. Mas quanto tempo dedicamos para refletir sobre as pequenas coisas, sobre os detalhes, sobre o que funciona ou não no dia a dia? O quanto paramos para nos debruçar sobre a operação em si, as dores dos nossos times e nossos medos?

O Edelman Trust Barometer de 2021 aponta claramente para isso: a pandemia causada pela Covid-19 alterou as perspectivas e os medos das pessoas, que – não sabendo no que ou em quem confiar – passaram a confiar ainda mais nas empresas onde trabalham. Uma baita responsabilidade para todos nós. E também uma enorme oportunidade de fazermos a diferença sob a ótica corporativa.

Sim, estamos vivendo algo que nunca imaginamos viver – isso é fato dado – mas a importância da consistência é muito anterior ao período que estamos vivendo. Afinal, consistência só se materializa quando temos presença e frequência. É disso que também nasce a confiança – exacerbada e escancarada nesse último ano e meio; e desafiada pela migração forçada das relações do mundo físico para o mundo majoritariamente virtual.

Entendo, também, que em algumas empresas a forma de ser consistente (e presente) está mais intrínseca à cultura. Talvez por sorte, essa é minha realidade. Afinal, somos uma empresa que nasceu do sonho de três propagandistas farmacêuticos, acostumados, de mala em punho, a visitar frequentemente seus clientes médicos. Eles se faziam presentes, estavam atentos, ouviam as necessidades e dores desses profissionais, se antecipavam em soluções. Eles tinham consistência de atuação. Não à toa, criaram um negócio confiável, sustentável e de sucesso.

Assim, também não é à toa que somos uma empresa naturalmente mais atenta aos detalhes, ao contato, ao cuidado com o que impacta o outro. E isso tem se feito ainda mais real nos últimos tempos. Para nós, tem ficado cada vez mais claro e urgente ouvir as pessoas, nos conectarmos às pequenas questões do dia a dia. Seja a dúvida sobre um cálculo de reembolso do plano de saúde, seja sobre as metas individuais e coletivas do ano, ou sobre a porta do banheiro da fábrica que está com o trinco solto, sobre como será o modelo híbrido de trabalho no pós-pandemia. Tudo que importa precisa ser cuidado.

E para “darmos conta do recado”, intensificamos os nossos ritos diários e a nossa escuta por meio de novas ferramentas de pesquisas de curto prazo. Não podemos esperar um mês, um trimestre ou um semestre para saber o que está afligindo nosso público interno e para nos conectarmos com a “estratégia”. Também redobramos nossa capacidade de responder, mesmo que seja – de forma sincera – para dizer que ainda não temos todas as respostas. Sim, nos tornamos ainda mais transparentes e mais ágeis, porque é também na agilidade que conseguimos corrigir as rotas com o menor impacto possível. As novas metodologias e a tecnologia, felizmente, estão aí para nos ajudar, sempre.

E voltando à entrevista do Simon Sinek com a qual abro essa reflexão (e que convido a assistirem), entendo – cada vez mais – que é na prática que a estratégia acontece. Muitas vezes, a própria operação é a estratégia que importa naquele momento. Não podemos só viver nas – e das – grandes ideias. Pois é dia após dia que nos conectamos aos grandes objetivos do negócio, tangibilizando e trazendo sentido a eles, olhando e zelando pelos detalhes e construindo as relações de confiança que tanto buscamos dentro das corporações. De forma consistente. E para durar.

*Tatiana Sereno é diretora executiva de Pessoas, Cultura e Sustentabilidade no Aché Laboratórios Farmacêuticos

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.