A estrada não tomada

Daniel Schnaider*

21 de setembro de 2018 | 08h26

Você está em uma estrada, a frente uma bifurcação. Para o lado esquerdo, você tem a opção de se envolver em um projeto de vida que você ama, tem paixão, onde você nem vai sentir que está trabalhando. Caso escolher o lado direito, você estará entrando em um mercado que está bombando, é claro, nada que você tenha muita afinidade e muito menos conhecimento. Então qual é sua decisão?

É muito comum que consultores, mentores, coaches e psicólogos vão indicar a primeira opção. Ora faz total sentido, dedicação em algo que você ama trará melhores resultados, sua energia será contagiante o que beneficiará a equipe influenciaria fornecedores, investidores e clientes, sua resiliência é maior diante ao fracasso, e seu aprofundamento no tema o tornará especialista. Mas será?

Não estaria os diversos cafés das grandes cidades no mundo cheios de sonhadores criando o que deveria ser a próxima Google, quando na realidade temos um bando de irresponsáveis que estão traindo suas próprias famílias com falta de maturidade e egoísmo clássico?

Meu avô, sobrevivente da segunda guerra mundial, que perdeu seus 11 irmãos e seus dois pais para a fúria nazista, não abriu um comércio em Engenho de Dentro no Rio de Janeiro porque era o sonho da sua vida, e não porque gostava disso. Era apenas um pragmatismo de quem era um marido e pai de dois filhos, que tinha a obrigação de botar comida em casa e o objetivo de vida de proporcionar uma vida melhor para seus descendentes. Sua felicidade, não vinha do que fazia, mas de estar vivo, de poder ter uma vida digna. Mas talvez este caso seja um caso particular?

Pois bem, Lincoln, não escolheu liderar o EUA na guerra mais sangrenta e talvez na sua maior crise moral, constitucional e política de sua história porque amava o que fazia. Churchill, não se colocou à disposição do rei para assumir a liderança da ilha britânica na segunda guerra mundial porque este era seu sonho de vida.

Martin Luther King não arriscou sua vida em inúmeras manifestações porque tinha paixão por estar nelas. O que diferencia grandes líderes de todo o resto é por eles fazerem o que tem que ser feito, mesmo com sacrifício próprio, e não pelo que gostam ou por ser algo mais confortável. Mas seria impossível conciliar os dois?

Algumas pessoas famosas como Steve Jobs, dizem que a razão pela qual foram tão bem sucedidos é porque faziam o que amavam. Desafio está na narrativa. Em estatística se diz que uma relação entre duas variáveis não pode explicar relação de causa e efeito. Pode ser, por exemplo, que a razão pela qual Jobs amava o que fazia era porque tinha sucesso e não o contrário.

Então talvez, o amor ao nosso ofício, pode ser um resultado social de ser bem sucedido naquilo que fazemos, que geraria bons feedbacks da sociedade o que nós daria um senso de orgulho e realização?

No seu livro, Outlier – fora de série, Malcom Gladwell traz outra explicação alternativa; nesta o sucesso de Jobs é altamente influenciado pelo ano e local de seu nascimento. Nesta visão, se Jobs tivesse nascido 10 anos mais tarde ou mais cedo, ou em outro local que não fizesse jus a suas habilidades, não seria o Jobs que conhecemos, e o fato de amar tecnologia e inovação seria irrelevante.

Outra perspectiva é que alguém como André Agassi, que foi forçado a ser tenista pelo seu pai, pode ter se apaixonado pela sua profissão depois que as possibilidades financeiras se expandiram (ainda não lí sua autobiografia); em psicologia isso se chama Reenquadramento Cognitivo.

Agora vamos ser sinceros. Você nunca fez uma escolha na qual se arrependeu? Não teve um namorado/a, como exemplo, que pensava que era uma coisa quando na final era outro/a. Não teve situações que você mudou, e deixou de gostar de algo que já gostou muito?

Um músico famoso, que ama a música desde 3 anos de idade, me contou sua rotina. Ele tem que se envolver em vendas, marketing, relações públicas, financeiro, captação de recursos – e no final, quase não resta tempo para fazer o que realmente ama, música. Mas senti sua verdadeira dor quando me contou que tentará influenciar seus filhos a não seguir o caminho dele. “É muito difícil, não quero que eles tenham que passar por tudo que estou passando”.

Minha opinião é que todos nós como sociedade, e principalmente nós profissionais, temos que tomar o extremo cuidado com recomendações pré-moldadas, dicotômicas e binárias. A vida e as pessoas são bem mais complexas do que definições simplificadas e às vezes simplistas que atendem principalmente necessidades comerciais de ganho de escala.

Uma técnica que pode lhe ajudar a encontrar a sua resposta para o caminho a ser escolhido, são ramificações da Terapia Cognitivo-Comportamental, uma técnica desenvolvida por psicólogos inicialmente para tratar de distúrbios mentais (depressão, ansiedade, etc) com base estudos científicos; CBT como é conhecida no mundo, pode ter excelentes ferramentas de suporte para decisões desta natureza, principalmente para evitar que você esteja realizando a escolha por razões equivocadas.

Robert Waldinger, diretor de Harvard do mais longo estudo sobre felicidade já realizado, diz que o foco deve ser em relacionamentos significativos. Será esta a resposta? Não interessa se escolhemos o caminho da paixão ou do oportunismo, o importante é realizar a jornada com as pessoas certas ao nosso lado. Isso fará toda a diferença!

Qual caminho você escolheria? Compartilhe sua opinião!

*Daniel Schnaider, autor do livro Pense com Alma e Aja Rápido (BestBusinness), é economista, especializado em reestruturação de empresas, gestão de crises e efeitos de tecnologias disruptivas

Tendências: