A essência da inveja na advocacia

A essência da inveja na advocacia

Bruno Pedro Bom*

01 de junho de 2021 | 15h00

Bruno Pedro Bom. FOTO: DIVULGAÇÃO

O Código de Ética e Disciplina da OAB, embora realize certos movimentos, não acompanha a agressividade das mudanças corporativas. O excesso de restrições, quase que limitadoras, atam os operadores do Direito no seu desenvolvimento e na construção de relevância no novo e digital cenário, restringindo a publicidade e competitividade dos advogados em comparação a outros profissionais prestadores de serviços de outros setores. ­Há, ainda, controvérsias sobre o que é permitido para publicação nas redes sociais assim como outras iniciativas de marketing digital e, para resolver estas discussões, o Conselho Federal da OAB pautou o debate sobre eventuais modificações e esclarecimentos sobre a matéria para o próximo dia 17 de junho em seu novo Provimento.

Embora existam certas contradições, inclusive conceituais do novo Provimento, uma delas me chamou atenção, o Paragrafo único do artigo 6º que diz:

“Parágrafo único: Fica vedado em qualquer publicidade a ostentação de bens relativos ao exercício ou não da profissão, como o uso de veículos, viagens, hospedagens e bens de consumo (…)”

Não proponho uma reflexão à liberdade de expressão, apanágio da natureza racional do indivíduo manifestar, livremente, opiniões, ideias e pensamentos sem medo, retaliação ou censura por parte do governo ou outros membros da sociedade. Conceito, inclusive, fundamental nas democracias modernas e previsto na Declaração universal dos Direitos Humanos:

“Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e impendentemente de fronteiras.”

Mas sim, trazer a luz um conceito antigo, presenciado em advogados e na comunidade de forma massiva, o da inveja.

A inveja é um sentimento natural no homem, o Bereshit (Gênesis) ao relatar a história de Caim e Abel usa a frase que é elucidativa quando Deus diz a Caim; “o teu desejo será sobre ti, mas cabe a ti dominá-lo”, ou seja, pode até ser um sentimento inerente ao homem, mas nos cabe governá-lo. Pior do que ser invejoso é mentir alegando que não sente inveja ou pior, revestir-se por meio de falsas intenções.

A inveja é a tristeza pela felicidade do outro, segundo Santo Tomas de Aquino. A palavra tem origem do latim invidia (in + videre) que significa o sentimento negativo que tenho ao olhar para o êxito alheio.

Esclarecendo a máxima socrática “Conheça a ti mesmo”, o invejoso é um cego que não consegue olhar para si, antes olha para outro sempre culpando o outro por sua incapacidade de ser ou ter, e mais, Dante Alighieri coloca o invejoso em seu inferno com os olhos costurados com arame, esse é o castigo do invejoso segundo o filósofo.

A inveja reverbera críticas sobre a beleza, a capacidade e as posses alheias, onde na sua essência, expressa segundo Leandro Karnal: “Como eu não sou e não posso ser eu me entristeço pelo que o outro é, como eu não consigo e acredito que não sou capaz, eu me entristeço com a capacidade do outro, como eu não tenho e não posso ter eu me entristeço com o que o outro tem. A inveja é a tristeza pela felicidade alheia.”

A inveja limite o crescimento do seu agente, o invejoso estagna a sua evolução e canaliza a sua energia fracassada no sucesso do outro. Para os invejosos a única culpa da sua situação sombria é meramente luz.

A principal indulgências da inveja é a ajuda, a falsa sensação de cuidado. Por meio de um pseudodiscurso virtuoso, o invejoso desloca para terceiros o seu sentimento ou intenção por meio de discursos ou até mesmo, dispositivos legais que deveriam servir para guiar e prestigiar uma coerência exitosa e não sobrepujar as limitações de crescimento dos seus legisladores ou autores do pecado original.

Uma parábola conta que uma vez uma cobra perseguia um vaga-lume, que nada mais fazia do que simplesmente brilhar.  Ele fugia rápido com medo da predadora e a cobra nem pensava em desistir.  Fugiu um dia, dois dias, mais outro e nada. No quarto dia, já sem forças, o vaga-lume parou e disse à cobra:

Posso fazer-lhe três perguntas?

– Pode. Não costumo abrir esse precedente para ninguém, mas já que vou te devorar, pode perguntar. Falou a cobra já indignada com o rumo da conversa.

– Pertenço à sua cadeia alimentar? Indagou o vaga-lume.

– Não. Respondeu a cobra.

– Te fiz alguma coisa? Voltou a perguntar o vaga-lume.

– Não. Voltou a responder a cobra.

– Então, por que você quer me devorar? Falou o vaga-lume.

E a cobra respondeu antes de devorá-lo: – Porque eu não suporto ver você brilhar.

Para os “ostensivos” digitais, merecedores do brilho do sucesso por meio da virtude, trabalho e mérito, inspirados e inspiradores, trago a luz a reflexão de Ayn Rand: “Nada pode tornar moral a destruição dos melhores. Não se pode ser punido por ser bom, ou pagar por ter sido hábil.”

*Bruno Pedro Bom, advogado e publicitário, especialista em Marketing Jurídico, fundador da BBDE Marketing Jurídico, Diretor de Marketing do IBDP. Autor da obra Marketing Jurídico na Prática, publicado pela editora Revista dos Tribunais

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