A esperança vive!

A esperança vive!

Emilio Bonduki*

30 Agosto 2017 | 04h30

Emilio Bonduki. FOTO: DIVULGAÇÃO

Segundo relatório recentemente divulgado pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), o deslocamento forçado de pessoas em todo o mundo, causado por guerras, violência e perseguições, atingiu em 2016 o número mais alto já registrado em todos os tempos. São 65,6 milhões de pessoas que tiveram de fugir de suas casas, cidades e países.

Brasileiro que emigrou para os Estados Unidos, fiquei muito tocado pelas estatísticas relativas aos refugiados. Já não é fácil deixar seu país em condições boas como as que vivenciei ao mudar em 2014 para a cidade de Coral Gables, onde fui bem recebido na Universidade da Flórida, no mercado de trabalho e na comunidade. Embora perfeitamente integrado, são inevitáveis alguns acessos de banzo, este sentimento atávico que herdamos da alma e da inigualável cultura africana, essência de nosso jeito único de sentir saudade.

Fico imaginando, então, o quanto deve ser penosa para as famílias de refugiados a experiência de uma abrupta mudança, sem terem se preparado para isso, movidas unicamente pela emergência de sobreviver. Essas pessoas desembarcam em nações distantes de sua terra, sem emprego, sem falar o idioma e sem perspectivas. Merecem, portanto, gestos nobres de solidariedade, fraternidade e atenção, para que possam reconstruir suas vidas e exercitar de modo pleno as prerrogativas da cidadania.

Nesse contexto, são preocupantes e devem ser rejeitadas as manifestações de xenofobia que parecem surgir de modo pontual em alguns países. É algo a ser contido no nascedouro! Com certeza, o preconceito, a intolerância e a discriminação de etnia, gênero, sexo, credo e ideologia não fazem parte da agenda a ser cumprida na busca de um mundo melhor. A pauta do Planeta está muito bem definida nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, que visam mitigar a miséria, melhorar a saúde, a educação e a qualidade da vida e combater as desigualdades.

Felizmente, num contraste com manifestações xenofóbicas isoladas, parece haver crescente sentimento universal sobre a importância do acolhimento e da interação harmoniosa entre todos os seres humanos. Como brasileiro e, agora, habitante dos Estados Unidos, sou um privilegiado no tocante à convivência em sociedades pluralistas. Meus dois países e, de modo ainda mais acentuado, meus dois Estados – São Paulo e Flórida – têm em comum uma forte presença de imigrantes e a convivência pacífica e fraterna de pessoas diferentes, mas unidas sob os ideais de liberdade, oportunidades de trabalho e respeito aos direitos e deveres de todo cidadão.

Tais virtudes, tão presentes nas Américas, renovam a cada dia as perspectivas de que o mundo possa superar a inusitada crise de refugiados e buscar soluções para os conflitos que seguem causando mortes, miséria e deslocamentos populacionais. A esperança está viva nas pessoas e povos de boa vontade!

*Mestrando em Gestão de Negócios Criativos pela Universidade da Flórida, é consultor de Moda e Negócios para The Webster, em Miami

Mais conteúdo sobre:

Artigo