A esperança equilibrista

A esperança equilibrista

Cassio Grinberg*

25 de dezembro de 2020 | 12h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

2020 foi o ano em que a esperança dançou na corda bamba de sombrinha, em que nosso coração fingiu fazer mil viagens, em que lembramos que é impossível ser feliz sozinho.

Este foi o ano em que não desejamos mal a quase ninguém, em que fomos selva de pedra quando poderíamos ter sido metamorfose ambulante, tudo ou nunca mais até nas coisas mais banais — ano das tantas vezes em que quisemos gritar “chega de saudade”.

2020 chegou quando estávamos a dois passos do paraíso, mas geralmente é assim. Em 2020 vimos que teríamos que levar uma vida moderninha, que a casa não tinha teto e nem tinha nada, e que as meninas do Leblon, quando muito, nos veriam pela tela do celular. Em 2020 lançamos um olhar 43 para a sorte, lembramos que louco é quem nos diz e não é feliz, e inclusive aceitamos a ajuda do futuro amor para o aluguel.

2020 foi o ano em que tivemos tempo para pensar em coisas como ‘o que diabos quer dizer abajur cor de carne?’, em que pedimos proteção ao maior abandonado, em que não paramos de pensar no que será o que será dessa astronave que não tem tempo nem hora de chegar. Em 2020, quisemos de verdade acreditar sempre que alguém nos dizia: vai passar.

Em 2020: março sem águas, tardinha sem barquinho, Ipanema sem a garota. Mas também: Planeta Água, andar com fé, fórmula do amor.

Em 2020 fomos barrados no baile mas também não adianta bater que eu não deixo você entrar; fomos brega e chique e quisemos jogar tudo fora no lixo; fomos avião sem asa e fogueira sem brasa e quando percebemos que este doce vampiro não se desculparia pelo auê, fizemos de conta que ainda era cedo sem lembrar que a noite inteira passa num segundo e o tempo voa mais do que a canção e, quando vimos, então é Natal.

E 2021? Vai ser o ano em que enxergaremos além do horizonte, lembrando que o show de todo artista tem que continuar. 2021 vai ser o ano em que não teremos tempo a perder, porque o melhor da vida, tomara, vai começar.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting e autor do livro Desaprenda – como se abrir para o novo pode nos levar mais longe

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